terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A " Chama"...
Conforme o meu tempo histórico se esvai, tenho considerado, refletido e desenvolvido cada vez mais a seguinte tese: Está próximo o tempo em que um dos poucos critérios que dufereniarão os seres os "humanos" será o da manutenção da "chama interior" da indignação frente as " dores " do mundo.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Te louvo Força Criadora, Inteligência que ordena a Evolução, Motor que move sem ser movido, Fogo que queima sem consumir!
Medito: qual seria a melhor forma de te honrar pela dinâmica da vida e alma? Pelas cores da natureza, tua criação?
A única resposta que me vem a mente por pura intuição e incrivelmente, acompanha o compasso do cor...ação, amar, amar, amar, amar...
Que não se submete a dogmas, pelo contrário, os subverte.
Sopra onde quer e como quer, desafia a sanidade de nossa fragil emoção enos provoca a viver.
Como te honrar, teimo em meditar.
A única resposta que me vem a mente por pura intuição e incrivelmente, acompanha o compasso do coração, amar, amar, amar, amar...
Medito: qual seria a melhor forma de te honrar pela dinâmica da vida e alma? Pelas cores da natureza, tua criação?
A única resposta que me vem a mente por pura intuição e incrivelmente, acompanha o compasso do cor...ação, amar, amar, amar, amar...
Que não se submete a dogmas, pelo contrário, os subverte.
Sopra onde quer e como quer, desafia a sanidade de nossa fragil emoção enos provoca a viver.
Como te honrar, teimo em meditar.
A única resposta que me vem a mente por pura intuição e incrivelmente, acompanha o compasso do coração, amar, amar, amar, amar...
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Chegando no Blog uma contribuição muito significativa da Aline Gonçalves, minha querida prima.
Muito bem, obrigada!
“O desafio foi lançado: cá estamos mulheres, com toda vivacidade e esmero que nos caracterizam: chegar aos trinta, muito bem, obrigada!
A tarefa não é nada fácil, e nem é pra ser. O fato é que chega uma hora em nossas vidas que, nos voltamos para dentro de nós, para nos lançarmos novamente, agora, um pouco mais diferente do que éramos ainda lá na casa dos vinte e poucos. Essa tal “introspecção”- já dizia Jung - acontece justamente aí, na casa dos trinta. Curioso, não?! Curioso e necessário. Eu diria mais: necessariamente visceral. Poeticamente bonito, e árduo ao longo dos anos. Mas, nada impossível para nós, mulheres!
Foi-se o tempo em que a obrigação tornava-se tema central e determinante às mulheres que deveriam de alguma forma, chegar aos trinta de filho no colo e avental à frente do corpo – sinalização clássica de uma mulher submissa, arcaica e culturalmente subestimada. Respeito aquelas que ainda vivem sob essa condição, mas, não é disso que quero me privilegiar aqui.
Para as mais resolvidas, chegar aos trinta é simplesmente glamour! É atingir a melhor fase da vida já vivida, é chamar o desafio pra mais perto e poder encará-lo com toda a experiência que te carrega, é ter a honra de poder refletir melhor e com mais qualidade emocional o nosso papel nessa missão finitamente possível, que é viver!
Chega de me atrasar! Não quero nunca mais parar de aprender comigo mesma! Quero brindar com o sorriso estampado e o brilho nos olhos os meus merecidos trinta anos! Quero representar com orgulho essa classe de mulheres guerreiras capazes de fazer história por onde passa e com quem se relaciona.
Quero me emocionar com o que há de mais simples e belo na vida com toda a fragilidade e sensibilidade de uma mulher em toda minha essência, sem ao mesmo tempo, ser fraca e incrédula aos meus sonhos! Ah, sonhar! Palavrinha-chave essencial na bagagem longa que me fez chegar aos meus trinta anos, muito bem, obrigada!
Quero degustar o prazer de viver meus dias assim! Venço-me. Vivo! Tudo só depende de mim!”
Texto: Aline Gonçalves
“O desafio foi lançado: cá estamos mulheres, com toda vivacidade e esmero que nos caracterizam: chegar aos trinta, muito bem, obrigada!
A tarefa não é nada fácil, e nem é pra ser. O fato é que chega uma hora em nossas vidas que, nos voltamos para dentro de nós, para nos lançarmos novamente, agora, um pouco mais diferente do que éramos ainda lá na casa dos vinte e poucos. Essa tal “introspecção”- já dizia Jung - acontece justamente aí, na casa dos trinta. Curioso, não?! Curioso e necessário. Eu diria mais: necessariamente visceral. Poeticamente bonito, e árduo ao longo dos anos. Mas, nada impossível para nós, mulheres!
Foi-se o tempo em que a obrigação tornava-se tema central e determinante às mulheres que deveriam de alguma forma, chegar aos trinta de filho no colo e avental à frente do corpo – sinalização clássica de uma mulher submissa, arcaica e culturalmente subestimada. Respeito aquelas que ainda vivem sob essa condição, mas, não é disso que quero me privilegiar aqui.
Para as mais resolvidas, chegar aos trinta é simplesmente glamour! É atingir a melhor fase da vida já vivida, é chamar o desafio pra mais perto e poder encará-lo com toda a experiência que te carrega, é ter a honra de poder refletir melhor e com mais qualidade emocional o nosso papel nessa missão finitamente possível, que é viver!
Chega de me atrasar! Não quero nunca mais parar de aprender comigo mesma! Quero brindar com o sorriso estampado e o brilho nos olhos os meus merecidos trinta anos! Quero representar com orgulho essa classe de mulheres guerreiras capazes de fazer história por onde passa e com quem se relaciona.
Quero me emocionar com o que há de mais simples e belo na vida com toda a fragilidade e sensibilidade de uma mulher em toda minha essência, sem ao mesmo tempo, ser fraca e incrédula aos meus sonhos! Ah, sonhar! Palavrinha-chave essencial na bagagem longa que me fez chegar aos meus trinta anos, muito bem, obrigada!
Quero degustar o prazer de viver meus dias assim! Venço-me. Vivo! Tudo só depende de mim!”
Texto: Aline Gonçalves
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Uma questão de Identidade
Hélio Márcio Gonçalves da Silva[1]
Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Gn 1,26
A questão da identidade interpela o ser humano desde sua criação. Vivemos momentos angustiantes com relação a esta temática.
Podemos dizer que de forma existencial, existe hoje, diante de tantos desencontros e tensionamentos, uma crise humana de identidade?
A polêmica é grande. Se para a antropologia filosófica e as demais ciências humanas e sociais a questão não é pacifica, será possível encontrarmos “portos seguros” com relação a este assunto? Quem tem a razão no debate?
Mais do que fazermos uma exposição ou fechamento sobre a posição das correntes de pensamento, percebível nas razões e des-razões de “ modernos” e pós-modernos”, quero lembrar apenas uma situação muito importante, definidora de felicidade e por que não ”sanidade” para todos nós que “ vivemos debaixo do sol”.
O ser humano não deve fugir, ou negar a sua identidade fundante. Todas as experiências de fuga, de transtorno dessa identidade fundante, original, resultaram na desumanização, ou seja, na completa descaracterização de seu ser. Mas que identidade é essa?
Diante da quantidade de conceitos, e aplicações: identidade cultural, social, funcional, institucional, grupal, etc... Pareceu-nos mais interessante eleger a identidade pessoal como característica mais profunda do que buscamos compreender nesta pequena reflexão.
Segundo Clara Costa Oliveira , “Parece irrefutável que a identidade pessoal emerge sobretudo da percepção interna (em linguagem filosófica) que os indivíduos humanos possuem de si próprios, ou das representações neurais que os indivíduos constroem de si próprios (em linguagem mais científica). Sendo, no entanto, os seres humanos organismos de terceira ordem (Maturana e Varela, 1972), temos que eles produzem a representação sobre si próprios inseridos em comunidades nas quais vivem, ou seja, as representações identitárias sobre nós próprios emergem (em indivíduos saudáveis) de co-construções que ocorrem nos sujeitos-nichos que constituem unidades complexas.”[2] Ou seja, como nos caracterizamos, percebemo-nos e mostramo-nos. Daí que o grande problema da “ crise de identidade” existencial humana seria o inverso, qual seja, a des-caracterização, a falta de percepção de si mesmo, a alteração do ser ( vir-a-ser-outro).
A Bíblia nos mostra vários exemplos dessa des-caracterização, ou seja, desse des-caráter, “ ficar sem cara”, sem o rosto que nos identifica. Saul foi um deles, perdeu essa identidade. Depois de ficar com raiva e inveja de Davi, “No dia seguinte, um espírito maligno mandado por Deus apoderou-se de Saul e ele entrou em transe (transtornado, surtado, descaracterizado)[3] em sua casa, enquanto Davi tocava harpa, como costumava fazer. Saul estava com uma lança na mão e a atirou, dizendo: Encravarei Davi na parede”. Daí em diante só ocorreram perseguições insanas e desespero a ponto de se chegar ao suicídio, a mais completa descaracterização humana. Outros casos de ira e inveja, traição e remorso, se repetem. Pedro sente vergonha, remorso, se esconde em si mesmo após “negar” o Mestre, tanto é que somente se reabilita após afirmar realmente seu amor por Jesus (Jo 21). Mas o mais profundo, o mais constrangedor, talvez pelo fato de ser o primeiro, é a situação vivenciada por Caim.
“O Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou[4]. O Senhor disse a Caim: "Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo". Disse, porém, Caim a seu irmão Abel: "Vamos para o campo". Quando estavam lá, Caim atacou seu irmão Abel e o matou” Gn 4,4-8. Na narrativa vemos a des-caracterização, originada no ódio que gera a violência, o assassinato. O ser humano, como imagem e semelhança do Criador, em sua identidade original, não vivencia a violência, mas quando a inveja e o ódio, o transtornam, daí, “ esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte.” Tg 1,15 .
É muito importante notar que Caim tem a chance de se definir em relação ao pecado, ao ódio que gerou a morte de seu irmão: “saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo". A possibilidade de escolher entre o bem e o mal Deus nos lembrará novamente em Deuteronômio 30,15, "Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam”. Daí para frente tudo vai depender de quem esta mais fortalecido e alimentado dentro de si. Se alimentarmos o bem, conservaremos nossa identidade, ao passo que com a opção pelo mal, mudamos nosso rosto, encobrimos nossa identidade, nos transtornamos.
A questão da identidade é percebida também nos momentos que verificamos o seu realce, a sua afirmação. A Bíblia sustenta que Moisés “resplandecia o rosto” , quando trouxe ao povo as tábuas da Lei. E quanto a Jesus, a verdadeira face humana do Pai “Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago” nos narra o evangelho de Lucas. E Estevão, como testemunha fiel de Jesus, ficou com a ”aparência de anjo” no momento de seu martírio.
Como já havia afirmado no inicio da reflexão só pretendo lembrar aqui nossa identidade original, conditio sine qua non para experimentarmos a felicidade, impressa no nosso verdadeiro rosto. A Escritura diz que fomos feitos a imagem e semelhança do Senhor, e que este “Senhor Deus plantou um jardim”, ora um Deus que planta, cuida, cultiva, embeleza, é um Deus jardineiro![5] Que poético e forte! Remete-nos a reflexão sobre o que temos feito, qual jardim cultivamos, que cuidado temos tido com as flores e arvores de nossa pequena vida terrena.
Em um mundo onde o desamor, o descuidado, as misérias humanas, sociais, espirituais e existenciais tem crescido gradativamente, podemos com certeza responder a pergunta expressa no inicio do texto:sim, existe uma crise identitária humana com certeza. Mas não é de hoje, é de sempre, desde o momento em que renegamos a verdadeira “imagem e semelhança do Criador”. Jesus nos ensina que renegando a imagem e semelhança de Deus, o filho pródigo ficou parecido com os porcos (nada contra esses animais) que teve de cuidar para sobreviver, até comia a comida deles! Só conseguimos fazer a experiência de retorno à identidade originária, quando temos um modelo, um ícone, um paradigma a quem podemos recorrer para nos orientar. Jesus de Nazaré, pois: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” Col 1,15.
O mundo indubitavelmente precisa mais e mais de Jesus, se não for como sinal de fé, na forma religiosa, pois sempre existirão várias religiões, mas que seja como modelo, ícone, paradigma, ou como Ele mesmo definiu-se: Caminho, Verdade e Vida, o SER HUMANO em sua perfeita integralidade ontológica, única forma de vivermos plenamente nossa humanidade e voltarmos a ser parecidos com o pai, filhos do “Deus jardineiro”, que cultiva e guarda seu jardim.
[1] Professor da Rede Pública Estadual de Mato Grosso.
[2] IN: IDENTIDADE PESSOAL:Caminhos e Perspectivas . Francisco Teixeira (coordenação)Coimbra, Editora Quarteto, 2004.
[3] Grifo meu. NVI, Nova Versão Internacional.
[4] Grifo meu. NVI, Nova Versão Internacional.
[5] Gn 2,8
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Campo e Camponeses sujeitos de direitos...
Educação do Campo: caminhos a percorrer
Hélio Márcio Gonçalves da Silva*
“O discurso da globalização que fala da ética esconde, porém, que sua é a ética do mercado e não a ética universal do ser humano, pela qual devemos lutar bravamente se optamos, na verdade, por um mundo de gente.” Paulo Freire.
Falar sobre educação do Campo é acima de tudo fazer ressoarem as milhares de vozes camponesas que gritam e lutam na defesa e na resistência do Campo como espaço de vida e de cultura. De vida porque, mais do que simplesmente estarem no seu lócus, os Povos do Campo vivenciam a concepção de agricultura mais radical possível, a de cultivo com o cuidado da terra. Nesta forma de ver e se situar o camponês “afaga” a Terra, invertendo uma lógica tão perversa, e ao mesmo tempo tão comum, a da exploração unilateral, que gera o desequilíbrio ecológico e a quebra dos laços de “filiação” a “Mãe Terra”. Por outro lado, temos um espaço de cultura firmado também na resistência à massificação promovida pelos MCS embalados pela mídia mercadológica que teima em apresentar um plano desfigurante do ser humano, ridicularizando-o e sexualizando-o como um objeto de consumo barato. O campo como espaço de cultura camponesa se volta para sedimentação de valores humanos forjados na solidariedade do grupo social representada nos mutirões, nas cantigas de trabalho, nas casas de farinha e nas outras formas de produção e criação coletivas. Como diz Cândido (2001), o caipira, acostumado às dificuldades proporcionadas pelo modelo colonizatório, encontra em seu meio social, as formas solidárias de vencer as dificuldades. Todos esses aspectos abordados, tanto o produtivo, como os culturais, se caracterizam como elementos basilares para um projeto de quem almeja uma Escola do Campo com a qualidade e o perfil dos homens, mulheres e jovens camponeses.
“Quando situamos a escola no horizonte dos direitos, temos de lembrar que os direitos representam sujeitos-sujeitos de direitos, não direitos abstratos-, que a escola, a educação básica tem de se propor tratar o homem, a mulher, a criança, o jovem do campo como sujeitos de direitos. Como sujeitos de história, de lutas, como sujeitos de intervenção, como alguém que constrói, que está participando de um projeto social. Por isso a escola do campo tem de levar em conta a história de cada educando e das lutas do campo.”(ARROYO, 2004, p.74)
As Escolas do Campo nascem da história de luta dos que entendem a educação como elemento de direito, este por sua vez negado historicamente pelo Estado Brasileiro que não considerou a especificidade do campo em suas agendas de políticas públicas. Ainda, infelizmente é muito comum ouvir conversas do tipo, “para a escolinha da roça qualquer coisa serve, eles nunca tiveram nada mesmo”. Tal fala, simboliza o cúmulo da negação da cidadania. Todo projeto de Educação do Campo que nasce da resposta a está negação, terá que espelhar o que elencam as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (RESOLUÇÃO CNE/CEB), de 3 de Abril de 2002) sendo:
Art. 4º“(...) expressão do trabalho compartilhado de todos os setores comprometidos com a universalização da educação escolar com qualidade social,(...) num espaço público de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o mundo do trabalho, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável.”
Ou seja, expressando uma proposta viável e atual de Cooperação, instrumentalizada por uma Pedagogia própria entendida como jeito de proporcionar a formação do ser humano, “identificando algumas práticas ou vivências fundamentais neste processo de humanização das pessoas, que também chamamos de educação”.(CALDART, 2004, p.98). E ainda:
Hélio Márcio Gonçalves da Silva*
“O discurso da globalização que fala da ética esconde, porém, que sua é a ética do mercado e não a ética universal do ser humano, pela qual devemos lutar bravamente se optamos, na verdade, por um mundo de gente.” Paulo Freire.
Falar sobre educação do Campo é acima de tudo fazer ressoarem as milhares de vozes camponesas que gritam e lutam na defesa e na resistência do Campo como espaço de vida e de cultura. De vida porque, mais do que simplesmente estarem no seu lócus, os Povos do Campo vivenciam a concepção de agricultura mais radical possível, a de cultivo com o cuidado da terra. Nesta forma de ver e se situar o camponês “afaga” a Terra, invertendo uma lógica tão perversa, e ao mesmo tempo tão comum, a da exploração unilateral, que gera o desequilíbrio ecológico e a quebra dos laços de “filiação” a “Mãe Terra”. Por outro lado, temos um espaço de cultura firmado também na resistência à massificação promovida pelos MCS embalados pela mídia mercadológica que teima em apresentar um plano desfigurante do ser humano, ridicularizando-o e sexualizando-o como um objeto de consumo barato. O campo como espaço de cultura camponesa se volta para sedimentação de valores humanos forjados na solidariedade do grupo social representada nos mutirões, nas cantigas de trabalho, nas casas de farinha e nas outras formas de produção e criação coletivas. Como diz Cândido (2001), o caipira, acostumado às dificuldades proporcionadas pelo modelo colonizatório, encontra em seu meio social, as formas solidárias de vencer as dificuldades. Todos esses aspectos abordados, tanto o produtivo, como os culturais, se caracterizam como elementos basilares para um projeto de quem almeja uma Escola do Campo com a qualidade e o perfil dos homens, mulheres e jovens camponeses.
“Quando situamos a escola no horizonte dos direitos, temos de lembrar que os direitos representam sujeitos-sujeitos de direitos, não direitos abstratos-, que a escola, a educação básica tem de se propor tratar o homem, a mulher, a criança, o jovem do campo como sujeitos de direitos. Como sujeitos de história, de lutas, como sujeitos de intervenção, como alguém que constrói, que está participando de um projeto social. Por isso a escola do campo tem de levar em conta a história de cada educando e das lutas do campo.”(ARROYO, 2004, p.74)
As Escolas do Campo nascem da história de luta dos que entendem a educação como elemento de direito, este por sua vez negado historicamente pelo Estado Brasileiro que não considerou a especificidade do campo em suas agendas de políticas públicas. Ainda, infelizmente é muito comum ouvir conversas do tipo, “para a escolinha da roça qualquer coisa serve, eles nunca tiveram nada mesmo”. Tal fala, simboliza o cúmulo da negação da cidadania. Todo projeto de Educação do Campo que nasce da resposta a está negação, terá que espelhar o que elencam as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (RESOLUÇÃO CNE/CEB), de 3 de Abril de 2002) sendo:
Art. 4º“(...) expressão do trabalho compartilhado de todos os setores comprometidos com a universalização da educação escolar com qualidade social,(...) num espaço público de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o mundo do trabalho, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável.”
Ou seja, expressando uma proposta viável e atual de Cooperação, instrumentalizada por uma Pedagogia própria entendida como jeito de proporcionar a formação do ser humano, “identificando algumas práticas ou vivências fundamentais neste processo de humanização das pessoas, que também chamamos de educação”.(CALDART, 2004, p.98). E ainda:
“a educação para a cooperação e solidariedade deve então, ser pensada em seu processo, no conjunto dos elementos que compõe o processo educativo, modificando o enfoque das relações estabelecidas, para que os sujeitos possam firmar-se no interior dos grupos pelo reconhecimento e valorização dos princípios da cooperação e da solidariedade”.(BOFF, 2004, p.128).
Pensar e apresentar um programa educacional que enfoque e enfatize a solidariedade e as relações de cooperação, requer pensar também nos contextos econômicos que estão inseridos os sujeitos da Educação do Campo (p.128). Daí surge a pergunta, qual seria o “campo” da Educação do Campo? O “campo” da vida ou o “campo” da exploração, o “campo” da agricultura familiar ou do agro-negócio capitalista? Sem dúvida alguma o que a luta histórica dos Movimentos Sociais do Campo vem demonstrando, é que o modelo de exploração econômica até agora vivido no Brasil, só trouxe o atraso nas relações sociais e o subdesenvolvimento. A exemplo disso, vivemos neste momento, a prova mais explicita da insegurança gerada pelo processo globalizatório na dita “agricultura empresarial”, vivenciada no modelo que se demonstra insustentável pelas mínimas variações cambiais do mercado internacional.
Outro elemento que suscita o pensar sobre o projeto em construção de Educação do Campo, é o modelo consumista que não poupa a população camponesa. Somente com a postura cooperativa da educação poderemos superar o caráter consumista do processo operacional de nossas escolas do Campo. Lembro-me de uma situação um tanto quanto constrangedora e ao mesmo tempo pedagógica ocorrida em uma “escolinha”de um assentamento. Em uma das mais significativas festas da comunidade/escola, a diretora veio a público pedir desculpas, pois o frango “de granja” congelado e comprado no supermercado não estava bem assado devido a falta de gás. Situação que merece uma dupla reflexão pelos responsáveis de aplicação do Projeto Político Pedagógico na Escola. Em primeiro lugar, não bastaria dizer que a escola do campo é o centro comunitário e social dos Povos do Campo, se ela não cumprisse o seu papel de organização e motivação dos elementos de sociabilidade tais como o mutirão, já citado anteriormente, fazendo com que todos pudessem contribuir para a efetivação da “festa”. O outro aspecto seria o aproveitamento de situações problemas para trazer a tona os conhecimentos tradicionais da cultura campesina, fazendo uma interação com os conhecimentos universais, já destacados nos parâmetros curriculares. Um exemplo disso seria o mutirão para a arrecadação das “prendas” e a construção do forno a lenha comunitário, todos eles enriquecidos pelos professores de ciências sociais, matemáticas, biológicas, químicas, etc... Tudo isso para demonstrar o potencial cooperativo que o campo pode proporcionar ao modelo de educação. Nos versos do camponês esta experiência se traduz:
Para decifrar a Terra e seus recursos naturais.
Os valores culturais que o tempo não desfez.
O saber do camponês, o que a vida lhe ensinou,
desafia o professor para ver quem sabe mais.
Seus currículos vêem dos pais, que herdaram dos avós
dos cantos dos Rouxinóis, das plantas dos animais.
E ainda comprometendo:
Educação é cultura com expressões regionais.
Não aceitamos a postura do saber menos, ou saber mais!
Há saberes diferentes e todos são decorrentes de nossa inculturação.
Se tivermos aptidão e entendermos o Campo
Construiremos os parâmetros de uma nova Educação.
( José Santana Monte, MPA-CE)
Vale ressaltar que, um projeto assim jamais cumpriria seus objetivos sem uma proposta pedagógica de alternância, ou seja, reconhecendo na valorização do Tempo Comunidade/Família o espaço de aprendizagem, co-responsável e interativo com o Tempo Escola. Esta proposta pedagógica vem sendo vivida há quase três décadas no Brasil pelas Escolas-Família Agrícola (EFAs):
“De maneira geral, a Pedagogia da Alternância trabalha com a experiência concreta do aluno, com o conhecimento empírico e a troca de conhecimento com atores do sistema tradicional de educação, e também, com membros da família e da comunidade na qual vive o aluno e que podem fornecer-lhe ensinamentos sobre aquela realidade”.(MARTINS, s/d, texto cedido pela organização).
E ainda seguindo o pensamento de MARTINS (2004), o trabalho com a Pedagogia da Alternância também revela o potencial dos jovens agricultores se desenvolverem como atores de produção de conhecimento, a partir do momento que questionam sua própria realidade e detém os instrumentos para encaminhar a investigação de tais questões de maneira mais sistemática.
Diante dos aspectos apresentados, seria importante lembrar a importância da formação inicial e continuada dos sujeitos cooperadores na condução de um projeto voltado à realidade dos “Povos do Campo”. Um projeto integral de Educação do Campo não poderia deixar de contemplar as necessidades apontadas e vivenciadas nas realidades pedagógicas camponesas. Seria importante lembrar que os Movimentos ensinam, mas também estão inseridos no processo do aprendizado, o que fundamenta a atitude dialética da formação permanente. A proposta aqui apresentada visa além de tudo refletir sobre a necessária Pedagogia da Cooperação, enfatizada na Educação do Campo, buscando contribuir no aprofundamento dessa temática, favorecendo a pesquisa-ação e o envolvimento da sociedade no debate público e necessário sobre os direitos até então negados. Arroyo esclarece que no âmbito dos centros produtores do conhecimento, existe:
“O silenciamento, esquecimento e até o desinteresse sobre o rural nas pesquisas sociais e educacionais é um dado histórico que se tornava preocupante. Por que a educação da população do campo foi esquecida? Um dado que exige explicação: somente 2% das pesquisas dizem respeito a questões do campo, não chegando a 1% as que tratam especificamente da educação escolar do meio rural. O movimento por uma Educação do Campo nasceu para denunciar esse silenciamento e esquecimento por parte dos órgãos governamentais, dos núcleos de financiamento de pesquisas, dos centros de pós-graduação e dos estudiosos das questões sociais e educacionais”.(2004, p.8).
Relembramos neste momento o papel e a missão da Universidade que se engaja na tentativa desafiante de se fazer presente nesta luta, oportunizando à parcela significativa da sociedade uma maior inserção no mundo do trabalho e da ciência.Tal iniciativa demonstra o interesse da instituição em superar uma das falácias mais eficazes da ideologia neoliberal, que se esforça em convencer os prejudicados das economias submetidas de que a realidade é assim mesmo, de que não há nada a fazer, mas seguir a ordem natural dos fatos. “A grande força sobre que alicerça-se a nova rebeldia é a ética universal do ser humano e não a do mercado, insensível a todo reclamo das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. É a ética da solidariedade humana.”( FREIRE, 1996, p.129). Ética do desprendimento, da aceitação do novo e do diferente, acima de tudo ética do encontro com os “Povos do Campo” de um Mato Grosso muitas vezes esquecido. A Universidade no Estado de Mato Grosso deve celebrar uma aliança com este projeto. O projeto social dos trabalhadores /as, que são os fundadores e os gestores da solidariedade e da cooperação como projeto social, deve promover o desenvolvimento integral do ser humano, a conservação da natureza, a compaixão pela terra e pelo outro, a ética universal, o projeto do humanismo social.(ZART, 2004).
Para decifrar a Terra e seus recursos naturais.
Os valores culturais que o tempo não desfez.
O saber do camponês, o que a vida lhe ensinou,
desafia o professor para ver quem sabe mais.
Seus currículos vêem dos pais, que herdaram dos avós
dos cantos dos Rouxinóis, das plantas dos animais.
E ainda comprometendo:
Educação é cultura com expressões regionais.
Não aceitamos a postura do saber menos, ou saber mais!
Há saberes diferentes e todos são decorrentes de nossa inculturação.
Se tivermos aptidão e entendermos o Campo
Construiremos os parâmetros de uma nova Educação.
( José Santana Monte, MPA-CE)
Vale ressaltar que, um projeto assim jamais cumpriria seus objetivos sem uma proposta pedagógica de alternância, ou seja, reconhecendo na valorização do Tempo Comunidade/Família o espaço de aprendizagem, co-responsável e interativo com o Tempo Escola. Esta proposta pedagógica vem sendo vivida há quase três décadas no Brasil pelas Escolas-Família Agrícola (EFAs):
“De maneira geral, a Pedagogia da Alternância trabalha com a experiência concreta do aluno, com o conhecimento empírico e a troca de conhecimento com atores do sistema tradicional de educação, e também, com membros da família e da comunidade na qual vive o aluno e que podem fornecer-lhe ensinamentos sobre aquela realidade”.(MARTINS, s/d, texto cedido pela organização).
E ainda seguindo o pensamento de MARTINS (2004), o trabalho com a Pedagogia da Alternância também revela o potencial dos jovens agricultores se desenvolverem como atores de produção de conhecimento, a partir do momento que questionam sua própria realidade e detém os instrumentos para encaminhar a investigação de tais questões de maneira mais sistemática.
Diante dos aspectos apresentados, seria importante lembrar a importância da formação inicial e continuada dos sujeitos cooperadores na condução de um projeto voltado à realidade dos “Povos do Campo”. Um projeto integral de Educação do Campo não poderia deixar de contemplar as necessidades apontadas e vivenciadas nas realidades pedagógicas camponesas. Seria importante lembrar que os Movimentos ensinam, mas também estão inseridos no processo do aprendizado, o que fundamenta a atitude dialética da formação permanente. A proposta aqui apresentada visa além de tudo refletir sobre a necessária Pedagogia da Cooperação, enfatizada na Educação do Campo, buscando contribuir no aprofundamento dessa temática, favorecendo a pesquisa-ação e o envolvimento da sociedade no debate público e necessário sobre os direitos até então negados. Arroyo esclarece que no âmbito dos centros produtores do conhecimento, existe:
“O silenciamento, esquecimento e até o desinteresse sobre o rural nas pesquisas sociais e educacionais é um dado histórico que se tornava preocupante. Por que a educação da população do campo foi esquecida? Um dado que exige explicação: somente 2% das pesquisas dizem respeito a questões do campo, não chegando a 1% as que tratam especificamente da educação escolar do meio rural. O movimento por uma Educação do Campo nasceu para denunciar esse silenciamento e esquecimento por parte dos órgãos governamentais, dos núcleos de financiamento de pesquisas, dos centros de pós-graduação e dos estudiosos das questões sociais e educacionais”.(2004, p.8).
Relembramos neste momento o papel e a missão da Universidade que se engaja na tentativa desafiante de se fazer presente nesta luta, oportunizando à parcela significativa da sociedade uma maior inserção no mundo do trabalho e da ciência.Tal iniciativa demonstra o interesse da instituição em superar uma das falácias mais eficazes da ideologia neoliberal, que se esforça em convencer os prejudicados das economias submetidas de que a realidade é assim mesmo, de que não há nada a fazer, mas seguir a ordem natural dos fatos. “A grande força sobre que alicerça-se a nova rebeldia é a ética universal do ser humano e não a do mercado, insensível a todo reclamo das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. É a ética da solidariedade humana.”( FREIRE, 1996, p.129). Ética do desprendimento, da aceitação do novo e do diferente, acima de tudo ética do encontro com os “Povos do Campo” de um Mato Grosso muitas vezes esquecido. A Universidade no Estado de Mato Grosso deve celebrar uma aliança com este projeto. O projeto social dos trabalhadores /as, que são os fundadores e os gestores da solidariedade e da cooperação como projeto social, deve promover o desenvolvimento integral do ser humano, a conservação da natureza, a compaixão pela terra e pelo outro, a ética universal, o projeto do humanismo social.(ZART, 2004).
Reforçar aqui a função da Universidade Pública é fundamental, penso que a importância de seu caráter público deve ser muito mais enfatizado, pois somente assim reafirmaremos o sentido mais profundo de Res-Publicum, coisa de todos, coisa do povo. E por ser de todos, deve dar respostas aos anseios também dos Povos do Campo, como forma de assumir assim sua responsabilidade social. Termo tão confundido ultimamente que reduz a ação da Universidade a atividades de pura Extensão. Lembremos do espaço do Ensino que deve contribuir para formar seres humanos, capazes de refletir criticamente tanto sobre a ciência e as técnicas que são incorporadas pela universidade quanto sobre sua relação e sentido na sociedade e no mundo, na perspectiva de um processo emancipatório que favoreça o ser humano e preserve o meio ambiente. Autoconhecimento e conhecimento do mundo social são dimensões importantes da formação para que o acadêmico seja capaz de tomar decisões conscientes como profissional e cidadão (GOERGEM, 2005).
Finalizo lembrando Pe. Vieira, para quem o discurso de quem não viu é só discurso, o discurso de quem viu é profecia. Vieira se referia a prática dos antigos sacerdotes e adivinhos em olhar a entranhas das vitimas dos sacrifícios a fim de prever o futuro. No processo da adivinhação, não se abria a sede do pensamento (cabeça) mas a sede dos sentimentos (coração). A prática pode ser supersticiosa, mas a lógica é verdadeira. Somente quem “viu” as “entranhas” das vitimas (crianças, jovens, homens e mulheres camponesas) sacrificadas pelo modelo injusto do sistema agrário brasileiro, esquecidos pelo poder público, e negligenciados até pela academia, pode “profetizar”o que espera a Educação em Movimento dos Povos do Campo.Um espaço de vida, respeito a natureza e cidadania. É o que juntos nos propomos a construir.
Finalizo lembrando Pe. Vieira, para quem o discurso de quem não viu é só discurso, o discurso de quem viu é profecia. Vieira se referia a prática dos antigos sacerdotes e adivinhos em olhar a entranhas das vitimas dos sacrifícios a fim de prever o futuro. No processo da adivinhação, não se abria a sede do pensamento (cabeça) mas a sede dos sentimentos (coração). A prática pode ser supersticiosa, mas a lógica é verdadeira. Somente quem “viu” as “entranhas” das vitimas (crianças, jovens, homens e mulheres camponesas) sacrificadas pelo modelo injusto do sistema agrário brasileiro, esquecidos pelo poder público, e negligenciados até pela academia, pode “profetizar”o que espera a Educação em Movimento dos Povos do Campo.Um espaço de vida, respeito a natureza e cidadania. É o que juntos nos propomos a construir.
Com a contribuição de vários com panheiros e companheiras,
Hélio Márcio
domingo, 9 de dezembro de 2007
" O Espírito do Capitalismo" - Max Weber
Weber inicia este capítulo elegendo como “pretensiosa” a expressão usada por ele para designar o verdadeiro Ethos do Capitalismo, o chamado “Espírito do Capitalismo”, termo este que encontra um forte significado cultural. Discorrer sobre este tema significa desenvolver uma “explanação histórica”, sem se fechar sobre uma formulação conceitual, mas somente iniciar uma descrição provisória sobre seu objeto de estudo neste caso. Adverte ainda que sua intenção inicial é de se manifestar com tranqüilidade a respeito de qualquer idéia religiosa, ficando livre de preconceitos ( p.29).
A partir da citação de sentenças proferidas por B. Franklin apresenta o que seria para ele o núcleo do Ethos do capitalismo, idéia original, que se diferencia como sendo a “qualidade” de interesse de sua obra, diferentemente de um mero “bom senso comercial”. Consegue distinguir este modo de ser e viver, pelo comprometimento na vivência de virtudes que levam ao grau de uma perfeição na honestidade e na prosperidade econômica dos pietistas. “Ganhar dinheiro dentro da ordem econômica moderna é, enquanto for feito legalmente, o resultado e a expressão de virtude e de eficiência em uma vocação: e estas virtude e eficiência são, como não é difícil de ver agora, os verdadeiros Alfa e Ômega da ética de Franklin(...)”(p.33). Discorrendo historicamente sobre o assunto Weber demonstra que a “avidez pelo ouro” sempre existiu no contexto das nações e épocas, sendo para ele, “tão velha quanto o homem” porém, esta mesma situação apresenta-se ultimamente de forma original, revestida de um novo caráter, o caráter racional que envolve a modernidade. Neste sentido, o oponente mais importante que o “Espírito do Capitalismo” como estilo normativo de vida tem que reagir, seria justamente o tradicionalismo econômico ligado a idéia da “necessidade de sobrevivência”e “aquisição( p.37 e 41). Para ilustrar esta situação, traz os exemplos de trabalhadores e trabalhadoras em diversos níveis e categorias e seus respectivos comportamentos em relação a salários e modos de trabalho. Um aspecto interessante a ser abordado, é a afirmação de que com as trabalhadoras metodistas “as oportunidades de superar o tradicionalismo aqui são muito grandes devido a educação religiosa. Esta observação do capitalismo contemporâneo sugere por si mesmo a validade da interrogação de como esta conexão de adaptabilidade do capitalismo a fatores religiosos pode ter surgido na época do seu desenvolvimento inicial”( p.40). Todas estas afirmações remetem a idéia de superação de um modelo aventureiro e sem base racional para uma concepção firme, sóbria, e ascética de um novo jeito de ser e experienciar a prosperidade econômica decorrentes da acumulação do capital. O tipo ideal não apresentará ostentação, evita as despesas desnecessárias e o gozo de uma vida de delicias. Ele encontra na “vocação” (trabalho) a forma de louvar e adorar a Deus sem perda de tempo. Mas o que teria feito germinar a noção de “vocação”como sentido para o trabalho ascético secular? Esta prefigura como uma das grandes perguntas de Weber neste capítulo. Diante da qual sugere e investiga inicialmente o caráter do racionalismo ofertado pelo desenvolvimento histórico, ao qual rejeita pelo fato da “história do racionalismo apresentar um desenvolvimento que absolutamente não segue linhas paralelas nos vários setores da vida”.(p.51) Desta forma finaliza o capitulo, afirmando que: “estamos aqui particularmente interessados na origem do elemento irracional que precisamente se apresenta nesta, como em toda concepção de Vocação”( p.51) o que de certa forma justifica sua investigação no capitulo V identificando a “ascese “ religiosa como elemento basilar desta nova forma normativa de vida.
Hélio Márcio Gonçalves da Silva
A partir da citação de sentenças proferidas por B. Franklin apresenta o que seria para ele o núcleo do Ethos do capitalismo, idéia original, que se diferencia como sendo a “qualidade” de interesse de sua obra, diferentemente de um mero “bom senso comercial”. Consegue distinguir este modo de ser e viver, pelo comprometimento na vivência de virtudes que levam ao grau de uma perfeição na honestidade e na prosperidade econômica dos pietistas. “Ganhar dinheiro dentro da ordem econômica moderna é, enquanto for feito legalmente, o resultado e a expressão de virtude e de eficiência em uma vocação: e estas virtude e eficiência são, como não é difícil de ver agora, os verdadeiros Alfa e Ômega da ética de Franklin(...)”(p.33). Discorrendo historicamente sobre o assunto Weber demonstra que a “avidez pelo ouro” sempre existiu no contexto das nações e épocas, sendo para ele, “tão velha quanto o homem” porém, esta mesma situação apresenta-se ultimamente de forma original, revestida de um novo caráter, o caráter racional que envolve a modernidade. Neste sentido, o oponente mais importante que o “Espírito do Capitalismo” como estilo normativo de vida tem que reagir, seria justamente o tradicionalismo econômico ligado a idéia da “necessidade de sobrevivência”e “aquisição( p.37 e 41). Para ilustrar esta situação, traz os exemplos de trabalhadores e trabalhadoras em diversos níveis e categorias e seus respectivos comportamentos em relação a salários e modos de trabalho. Um aspecto interessante a ser abordado, é a afirmação de que com as trabalhadoras metodistas “as oportunidades de superar o tradicionalismo aqui são muito grandes devido a educação religiosa. Esta observação do capitalismo contemporâneo sugere por si mesmo a validade da interrogação de como esta conexão de adaptabilidade do capitalismo a fatores religiosos pode ter surgido na época do seu desenvolvimento inicial”( p.40). Todas estas afirmações remetem a idéia de superação de um modelo aventureiro e sem base racional para uma concepção firme, sóbria, e ascética de um novo jeito de ser e experienciar a prosperidade econômica decorrentes da acumulação do capital. O tipo ideal não apresentará ostentação, evita as despesas desnecessárias e o gozo de uma vida de delicias. Ele encontra na “vocação” (trabalho) a forma de louvar e adorar a Deus sem perda de tempo. Mas o que teria feito germinar a noção de “vocação”como sentido para o trabalho ascético secular? Esta prefigura como uma das grandes perguntas de Weber neste capítulo. Diante da qual sugere e investiga inicialmente o caráter do racionalismo ofertado pelo desenvolvimento histórico, ao qual rejeita pelo fato da “história do racionalismo apresentar um desenvolvimento que absolutamente não segue linhas paralelas nos vários setores da vida”.(p.51) Desta forma finaliza o capitulo, afirmando que: “estamos aqui particularmente interessados na origem do elemento irracional que precisamente se apresenta nesta, como em toda concepção de Vocação”( p.51) o que de certa forma justifica sua investigação no capitulo V identificando a “ascese “ religiosa como elemento basilar desta nova forma normativa de vida.
Hélio Márcio Gonçalves da Silva
Os caminhos e descaminhos da “acumulação racializada de oportunidades atribuídas ao mérito”. [1]
Deixar de debater um problema, ou ignorá-lo, jamais fará com que o mesmo possa ser sanado ou pelo menos combatido. Enfrentamos no Brasil, alguns problemas que ainda carecem de debates sérios e pontuais, que inobstantes estarem sendo feitos na Academia, precisam ser inseridos nas realidades diárias de todos nós. Falo aqui do debate sobre o racismo, o preconceito e a discriminação racial fortemente enraizados na sociedade brasileira e na maioria das vezes negado ou dissimulado. Daí surge à pergunta, onde as categorias acima descritas estão mais presentes? Lembro-me do slogan de uma campanha anti-racismo veiculada na televisão que perguntava: “Onde você guarda seu racismo?” A leitura e o conhecimento da pesquisa intitulada “Desigualdades Raciais no Brasil : um balanço da intervenção governamental” do IPEA [2] , sob a coordenação de Luciana Jaccoud e Nathalie Beghin nos mostra claramente onde estão os espaços de discriminação racial e nos coloca em sintonia com o debate sobre as políticas afirmativas no Brasil.
Admitir as discriminações e os preconceitos com relação ao elemento racial no Brasil nos remete a discussão primeiramente ao confronto com o “mito da democracia racial” . A idéia das “três raças” fundadoras da nação e do povo, que aprenderam a conviver harmoniosamente e em condições de igualdade. O texto, altamente elucidativo expõe os números da desigualdade, quais sejam: desigualdade de renda e pobreza, desigualdades e discriminação no mercado de trabalho, desigualdades e discriminação na educação, de onde “depreende-se, com clareza que parte significativa das desigualdades raciais entre brancos e negros no país está diretamente vinculada à discriminação racial vigente tanto na escola como no mercado de trabalho” (Jaccoud e Beghin, 2002).
Dos elementos e categorias expostos, penso que o Estado Brasileiro deve ser o propulsor de Políticas Públicas que venham de encontro a esta realidade gritante, tendo como fundamento basilar, a tão propalada noção de cidadania:
“A cidadania se constitui pela e na criação de espaço sociais de lutas ( movimentos sociais, movimentos populares e movimentos sindicais) e pela instituição de formas políticas de expressão permanentes ( partidos políticos, Estado de Direito, políticas econômicas e sociais) que criem, reconheçam e garantam a igualdade e liberdade dos cidadãos, declaradas sob a forma dos direitos. Em outras palavras, desde sua fundação, a democracia é inseparável da idéia de espaço público.” ( Chauí, 2001, p.12)
Num contexto social, cultural e econômico, onde a legislação coativa contra discriminação se mostra ineficiente no que diz respeito à inserção do negro no mundo do trabalho, relegando a essa população os “postos menos atraentes, mais servis do mercado de trabalho como um todo ou de um determinado ramo de atividade” (Gomes, 2001 apud Jaccoud e Beghin, 2002, p.41), quais seriam as saídas para essa deficiência? Como vislumbrar outros horizontes que não o da desigualdade?
E é neste espaço público que devemos trazer presente a realidade das Políticas Afirmativas e a suas contribuições na superação e combate das desigualdades raciais. Na medida em que a questão racial se impõe à agenda nacional, torna-se fundamental reconhecer que só se combate à desigualdade por diferentes frentes ( Jaccoud e Beghim, 2002, p.41), reativamente e pró – ativamente, ou seja, enfrentando diretamente e indiretamente a discriminação e o racismo na sociedade brasileira.
Outro fator que contribui para o debate em questão é a discordância e a contrariedade existente em alguns setores da sociedade brasileira, bem como na opinião de alguns intelectuais. Segundo Santos (1997) apud Jaccoud e Beghin (2002) é possível identificar alguns argumentos neste debate: a questão da isonomia, a idéia do mérito, o fator da pobreza e o elemento da miscigenação. Além do que é muito comum ainda ouvir vozes discordantes, argumentando que tais políticas aguçariam o conflito racial brasileiro. Enfim, os argumentos contrários devem e vem sendo rebatidos vigorosamente, demonstrando que somente tratando diferentemente os desiguais, é que se pode alcançar uma igualdade distributiva entre os grupos, rebatendo a idéia reducionista do mérito, que não reconhece a excelência que o país pode ganhar incluindo pessoas capazes( pretos e pardos) de desenvolver suas potencialidades, reconhecendo que independente da pobreza real que assola boa parte da população, os negros em razão de sua marginalização histórica e muitas vezes a baixa auto-estima não conseguirão avançar sem uma política especifica de inclusão racial, e por fim as Políticas Afirmativas ligadas a raça devem atingir tanto pretos como pardos pois os dados pesquisados revelam que os dois grupos sofrem dificuldades parecidas.
O debate sobre as Políticas Afirmativas e sua confirmação temporal se torna necessário até porque numa sociedade democrática, uma de suas características fundamentais, seria a compreensão de que “a criação dos direitos” só pode realmente existir na democracia, regime político aberto às mudanças temporais, que faz surgir o novo como parte de sua existência e consequentemente a temporalidade como seu modo de ser (Chauí, 2001, p.11).
Não podemos mais nos esquivar desse precioso e elucidativo debate nacional. Algumas situações, bem como algumas ações têm sido feitas e devem ser apoiadas pela sociedade (o caso das cotas universitárias, por exemplo) se queremos de fato estender a cidadania concreta (e não só de fábula) a nossa população negra, historicamente marginalizada.
O que nas palavras de Roberto DaMata (2001, p.47) se confirmam :
“Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplas possibilidades de classificação. Assim, o “racismo à brasileira”, paradoxalmente, torna a injustiça algo tolerável, e a diferença, uma questão de tempo e amor. Eis, numa cápsula, o segredo da fábula das três raças...”
Viver a ingenuidade, crer exclusivamente na eficiência de medidas coativas para superar a discriminação e a desigualdade racial no Brasil, “absolutizar” o mérito como única forma de acesso a bens e serviços públicos, é continuar a acreditar no famoso “Mito da Democracia Racial Brasileira” e no mínimo perpetuar a marginalização.
[1] Termo utilizado por Guimarães (1996) apud Jaccoud e Beghin (2002), p.53.
[2] Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.
Admitir as discriminações e os preconceitos com relação ao elemento racial no Brasil nos remete a discussão primeiramente ao confronto com o “mito da democracia racial” . A idéia das “três raças” fundadoras da nação e do povo, que aprenderam a conviver harmoniosamente e em condições de igualdade. O texto, altamente elucidativo expõe os números da desigualdade, quais sejam: desigualdade de renda e pobreza, desigualdades e discriminação no mercado de trabalho, desigualdades e discriminação na educação, de onde “depreende-se, com clareza que parte significativa das desigualdades raciais entre brancos e negros no país está diretamente vinculada à discriminação racial vigente tanto na escola como no mercado de trabalho” (Jaccoud e Beghin, 2002).
Dos elementos e categorias expostos, penso que o Estado Brasileiro deve ser o propulsor de Políticas Públicas que venham de encontro a esta realidade gritante, tendo como fundamento basilar, a tão propalada noção de cidadania:
“A cidadania se constitui pela e na criação de espaço sociais de lutas ( movimentos sociais, movimentos populares e movimentos sindicais) e pela instituição de formas políticas de expressão permanentes ( partidos políticos, Estado de Direito, políticas econômicas e sociais) que criem, reconheçam e garantam a igualdade e liberdade dos cidadãos, declaradas sob a forma dos direitos. Em outras palavras, desde sua fundação, a democracia é inseparável da idéia de espaço público.” ( Chauí, 2001, p.12)
Num contexto social, cultural e econômico, onde a legislação coativa contra discriminação se mostra ineficiente no que diz respeito à inserção do negro no mundo do trabalho, relegando a essa população os “postos menos atraentes, mais servis do mercado de trabalho como um todo ou de um determinado ramo de atividade” (Gomes, 2001 apud Jaccoud e Beghin, 2002, p.41), quais seriam as saídas para essa deficiência? Como vislumbrar outros horizontes que não o da desigualdade?
E é neste espaço público que devemos trazer presente a realidade das Políticas Afirmativas e a suas contribuições na superação e combate das desigualdades raciais. Na medida em que a questão racial se impõe à agenda nacional, torna-se fundamental reconhecer que só se combate à desigualdade por diferentes frentes ( Jaccoud e Beghim, 2002, p.41), reativamente e pró – ativamente, ou seja, enfrentando diretamente e indiretamente a discriminação e o racismo na sociedade brasileira.
Outro fator que contribui para o debate em questão é a discordância e a contrariedade existente em alguns setores da sociedade brasileira, bem como na opinião de alguns intelectuais. Segundo Santos (1997) apud Jaccoud e Beghin (2002) é possível identificar alguns argumentos neste debate: a questão da isonomia, a idéia do mérito, o fator da pobreza e o elemento da miscigenação. Além do que é muito comum ainda ouvir vozes discordantes, argumentando que tais políticas aguçariam o conflito racial brasileiro. Enfim, os argumentos contrários devem e vem sendo rebatidos vigorosamente, demonstrando que somente tratando diferentemente os desiguais, é que se pode alcançar uma igualdade distributiva entre os grupos, rebatendo a idéia reducionista do mérito, que não reconhece a excelência que o país pode ganhar incluindo pessoas capazes( pretos e pardos) de desenvolver suas potencialidades, reconhecendo que independente da pobreza real que assola boa parte da população, os negros em razão de sua marginalização histórica e muitas vezes a baixa auto-estima não conseguirão avançar sem uma política especifica de inclusão racial, e por fim as Políticas Afirmativas ligadas a raça devem atingir tanto pretos como pardos pois os dados pesquisados revelam que os dois grupos sofrem dificuldades parecidas.
O debate sobre as Políticas Afirmativas e sua confirmação temporal se torna necessário até porque numa sociedade democrática, uma de suas características fundamentais, seria a compreensão de que “a criação dos direitos” só pode realmente existir na democracia, regime político aberto às mudanças temporais, que faz surgir o novo como parte de sua existência e consequentemente a temporalidade como seu modo de ser (Chauí, 2001, p.11).
Não podemos mais nos esquivar desse precioso e elucidativo debate nacional. Algumas situações, bem como algumas ações têm sido feitas e devem ser apoiadas pela sociedade (o caso das cotas universitárias, por exemplo) se queremos de fato estender a cidadania concreta (e não só de fábula) a nossa população negra, historicamente marginalizada.
O que nas palavras de Roberto DaMata (2001, p.47) se confirmam :
“Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplas possibilidades de classificação. Assim, o “racismo à brasileira”, paradoxalmente, torna a injustiça algo tolerável, e a diferença, uma questão de tempo e amor. Eis, numa cápsula, o segredo da fábula das três raças...”
Viver a ingenuidade, crer exclusivamente na eficiência de medidas coativas para superar a discriminação e a desigualdade racial no Brasil, “absolutizar” o mérito como única forma de acesso a bens e serviços públicos, é continuar a acreditar no famoso “Mito da Democracia Racial Brasileira” e no mínimo perpetuar a marginalização.
[1] Termo utilizado por Guimarães (1996) apud Jaccoud e Beghin (2002), p.53.
[2] Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Nestes dias tristes...
A vida é limitada. Está certeza muitas vezes nos constrange naturalmente, mas muito mais quando ela (vida) se torna limitada por um acidente, por uma violência, enfim por uma ação não natural.
Perder um ente querido se configura uma experiência das mais dolorosas. Somente quem viveu esta situação sabe a dor, a tristeza, o sofrimento na alma. Eu, na noite passada quase não dormi, pensando na angustia das famílias do acidente aéreo da TAM em Congonhas. Oro por eles, só posso ser solidário neste momento assim... Mas não deixo de ficar muito incomodado com a “morte nossa de cada dia” fruto da violência humana estrutural que ocorre nas favelas, nas ruas, nas periferias e por vezes fica tão banalizada que passa a ser pouco comentada.
Entretanto, como toda experiência existencial humana, a morte também merece ser refletida. Recordo-me de uma aula de filosofia na Universidade, primeiro semestre de Agronomia, na ocasião meus alunos (creio que a maioria) esperavam um discurso pronto sobre os “fundamentos epistemológicos da ciência moderna no ocidente” e resolvi lhes perguntar se “estavam preparados” para o momento de sua morte! Nem lhes conto, aquilo foi chocante, repudiaram dramaticamente o questionamento, perguntando-me se eu estava louco, rsrsr...
Ficou-me como certa a impressão de que a grande maioria das pessoas, jovens principalmente não sabe lidar com este assunto.Mas por quais motivos?
Lendo um texto de filosofia estes dias, as autoras faziam uma menção curiosa. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins sugerem que nossa sociedade substitui os momentos de discutir alguns “tabus”, dentre eles a morte e o sexo. Deixe-me explicar melhor. Antigamente, se falava pouco sobre sexo, a educação sexual era “experimentada” às “escondidas”. As mães por vezes só contavam para as filhas o que viria acontecer na noite de núpcias, poucos momentos antes do casamento. Era um “tabu”. Por outro lado, a morte era experienciada, vivida no seio da família. Um idoso morria cercado pelos filhos, abençoando seus netos, quase que num ritual de despedidas finais. Hoje, ao contrário, aprende-se cedo sobre sexo, as escolas, os pais, a televisão, a Internet, todos comentam abertamente sobre o assunto, mas sobre a morte, seus rituais, sobre os limites da vida, quase ninguém se atreve a falar. Ficam relegados as “mãos”e cuidados de profissionais, muitas vezes longe da casa familiar, na frieza muitas vezes de um hospital ou asilo. Percebe-se ai um distanciamento (ou medo?) da dor, do sofrimento, do limite final. Uma tentativa de poupar os pequenos.
Recordar que a vida tem limite, que nosso tempo histórico é finito, creio eu que seja uma necessidade nos dias atuais se considerarmos o quanto podemos poupar de sofrimentos a própria vida. O homem hodierno anula as coisas mais prazerosas e significativas da vida em nome de um suposto prolongamento da mesma. Dá para perceber isso quando vemos uma verdadeira dependência da chamada “produtividade” no trabalho, do relógio, das convenções sociais, tudo isso em detrimento do tempo com a família, com os amigos, até consigo mesmo. Como é motivador, espiritualmente falando contemplar um pôr-do-sol.
Fico imaginando então, quem pensa que pode “acrescentar” um dia a mais na sua vida, e a pior, pensa que nunca a morte chegará a ele, no máximo ela chega no “vizinho”. Não me considerem um fatalista, ou mesmo determinista com relação a este assunto, mas penso que temos que considerar sempre, e com certeza a finitude de nossa vida. É muito significativo o conselho evangélico de que a vida é dom de Deus (Lc 12, 16-21), e que não podemos nos iludir com os projetos puramente materiais. Um grande pregador, o saudoso Pe. Léo, dizia que “só vale a pena lutar por aquilo que tem a marca do eterno”.
Bem, daria para ficar escrevendo, escrevendo e sendo chato sobre isso. Finalizo afirmando que a morte é conseqüência de nossa condição humana, e por mais que tentemos adiá-la, ela chega e nos colhe.
Por ser triste, deixar vazio, dor e sofrimento ela jamais conseguirá ser “explicada”. Só podemos “chorar com os que choram”, ou seja, experiência-la, vivê-la literalmente falando. Viver a morte com a certeza da vida! E como cristão, eu creio que ela não pode ser o veredicto final. Ora, se a semente não morre, nunca vira árvore! Somente “quem não ama permanece na morte” e “nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (I Jo 3,14). Eis o caminho seguro para a superação da morte e seu medo. Ser semente! Disso decorre que só se tem medo da morte quando a semente é estéril, ou quando a vida é pequena ou muito medíocre. Amar faz a vida ser plena, grande e eterna. Nos da a certeza de germinar e ser árvore. Isso vale para todos, independente da crença ou não-crença.
Pensemos nisso e nos convertamo-nos para o amor.
Paz, bem e bom dia a tod@s!
Hélio Márcio
Perder um ente querido se configura uma experiência das mais dolorosas. Somente quem viveu esta situação sabe a dor, a tristeza, o sofrimento na alma. Eu, na noite passada quase não dormi, pensando na angustia das famílias do acidente aéreo da TAM em Congonhas. Oro por eles, só posso ser solidário neste momento assim... Mas não deixo de ficar muito incomodado com a “morte nossa de cada dia” fruto da violência humana estrutural que ocorre nas favelas, nas ruas, nas periferias e por vezes fica tão banalizada que passa a ser pouco comentada.
Entretanto, como toda experiência existencial humana, a morte também merece ser refletida. Recordo-me de uma aula de filosofia na Universidade, primeiro semestre de Agronomia, na ocasião meus alunos (creio que a maioria) esperavam um discurso pronto sobre os “fundamentos epistemológicos da ciência moderna no ocidente” e resolvi lhes perguntar se “estavam preparados” para o momento de sua morte! Nem lhes conto, aquilo foi chocante, repudiaram dramaticamente o questionamento, perguntando-me se eu estava louco, rsrsr...
Ficou-me como certa a impressão de que a grande maioria das pessoas, jovens principalmente não sabe lidar com este assunto.Mas por quais motivos?
Lendo um texto de filosofia estes dias, as autoras faziam uma menção curiosa. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins sugerem que nossa sociedade substitui os momentos de discutir alguns “tabus”, dentre eles a morte e o sexo. Deixe-me explicar melhor. Antigamente, se falava pouco sobre sexo, a educação sexual era “experimentada” às “escondidas”. As mães por vezes só contavam para as filhas o que viria acontecer na noite de núpcias, poucos momentos antes do casamento. Era um “tabu”. Por outro lado, a morte era experienciada, vivida no seio da família. Um idoso morria cercado pelos filhos, abençoando seus netos, quase que num ritual de despedidas finais. Hoje, ao contrário, aprende-se cedo sobre sexo, as escolas, os pais, a televisão, a Internet, todos comentam abertamente sobre o assunto, mas sobre a morte, seus rituais, sobre os limites da vida, quase ninguém se atreve a falar. Ficam relegados as “mãos”e cuidados de profissionais, muitas vezes longe da casa familiar, na frieza muitas vezes de um hospital ou asilo. Percebe-se ai um distanciamento (ou medo?) da dor, do sofrimento, do limite final. Uma tentativa de poupar os pequenos.
Recordar que a vida tem limite, que nosso tempo histórico é finito, creio eu que seja uma necessidade nos dias atuais se considerarmos o quanto podemos poupar de sofrimentos a própria vida. O homem hodierno anula as coisas mais prazerosas e significativas da vida em nome de um suposto prolongamento da mesma. Dá para perceber isso quando vemos uma verdadeira dependência da chamada “produtividade” no trabalho, do relógio, das convenções sociais, tudo isso em detrimento do tempo com a família, com os amigos, até consigo mesmo. Como é motivador, espiritualmente falando contemplar um pôr-do-sol.
Fico imaginando então, quem pensa que pode “acrescentar” um dia a mais na sua vida, e a pior, pensa que nunca a morte chegará a ele, no máximo ela chega no “vizinho”. Não me considerem um fatalista, ou mesmo determinista com relação a este assunto, mas penso que temos que considerar sempre, e com certeza a finitude de nossa vida. É muito significativo o conselho evangélico de que a vida é dom de Deus (Lc 12, 16-21), e que não podemos nos iludir com os projetos puramente materiais. Um grande pregador, o saudoso Pe. Léo, dizia que “só vale a pena lutar por aquilo que tem a marca do eterno”.
Bem, daria para ficar escrevendo, escrevendo e sendo chato sobre isso. Finalizo afirmando que a morte é conseqüência de nossa condição humana, e por mais que tentemos adiá-la, ela chega e nos colhe.
Por ser triste, deixar vazio, dor e sofrimento ela jamais conseguirá ser “explicada”. Só podemos “chorar com os que choram”, ou seja, experiência-la, vivê-la literalmente falando. Viver a morte com a certeza da vida! E como cristão, eu creio que ela não pode ser o veredicto final. Ora, se a semente não morre, nunca vira árvore! Somente “quem não ama permanece na morte” e “nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (I Jo 3,14). Eis o caminho seguro para a superação da morte e seu medo. Ser semente! Disso decorre que só se tem medo da morte quando a semente é estéril, ou quando a vida é pequena ou muito medíocre. Amar faz a vida ser plena, grande e eterna. Nos da a certeza de germinar e ser árvore. Isso vale para todos, independente da crença ou não-crença.
Pensemos nisso e nos convertamo-nos para o amor.
Paz, bem e bom dia a tod@s!
Hélio Márcio
quarta-feira, 18 de julho de 2007
VALE A PENA REFLETIR SOBRE O QUE DO FUNDO DA ALMA CREMOS E AMAMOS...
Frei Betto nos brinda com esta poesia linda e constrangedora...
Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir. Deus que precede todos os batismos, pré-existe aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas. Livre dos teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.
Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos. Deus ourives em cada ínfimo elo das partículas elementares, da requintada arquitetura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.
Creio no Deus que se faz sacramento em tudo que aproxima, atrai, enlaça, abraça e une - o amor. Todo amor é Deus e Deus é o real. Em se tratando de Deus, bem diz Rumî, não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.
Creio no Deus que se faz refração na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer. Creio em teofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro que não sou eu. Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto conseguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.
Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere blasfêmias.
Creio no Deus que, na minha infância, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namorada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanheceres.
Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do coração e, soada a música, arrebata-nos à saciedade.
Creio no Deus do estupor de Maria, da trilha laboral das formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.
Creio no Deus que se esconde no avesso da razão atéia, observa o empenho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.
Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao hediondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha à nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de estultices humanas.
Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nessa Criação sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso ato de fé.
Frei Betto é escritor, autor de "A Obra do Artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.
Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir. Deus que precede todos os batismos, pré-existe aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas. Livre dos teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.
Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos. Deus ourives em cada ínfimo elo das partículas elementares, da requintada arquitetura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.
Creio no Deus que se faz sacramento em tudo que aproxima, atrai, enlaça, abraça e une - o amor. Todo amor é Deus e Deus é o real. Em se tratando de Deus, bem diz Rumî, não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.
Creio no Deus que se faz refração na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer. Creio em teofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro que não sou eu. Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto conseguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.
Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere blasfêmias.
Creio no Deus que, na minha infância, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namorada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanheceres.
Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do coração e, soada a música, arrebata-nos à saciedade.
Creio no Deus do estupor de Maria, da trilha laboral das formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.
Creio no Deus que se esconde no avesso da razão atéia, observa o empenho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.
Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao hediondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha à nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de estultices humanas.
Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nessa Criação sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso ato de fé.
Frei Betto é escritor, autor de "A Obra do Artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.
terça-feira, 17 de julho de 2007
Por onde andas...o que tens feito...o que pretendes fazer ?
Muitas pessoas e inclusive amig@s que tenho reencontrado tem me enchido de perguntas ultimamente. Perguntas que chegam as raias da pura "especulação" ( me perdoem se fui duro).
Por onde andas? O que você tem feito? O que pretende fazer e ser?
Bem se vier de amigos próximos, a maioria ja sabe todas elas, pois os amigos sempre nos acompanharam. Mas se "alguém " ainda não sabe eu respondo: fico em Cuiabá fazendo o Mestrado em Educação ( meu grande sonho se concretiza), e simplesmente pretendo ser um bom educador em minha cidade.
Só isso, simples como o Evangelho. Nada mais de " luzes, câmera, ação!". Sinceramente, não tenho vocação para isso. Passei no concurso da SEDUC e não quero perder esta chance.
Político serei sempre, no sentido mais radical da palavra, como diz Aristóteles um verdadeiro " zoom politikon"( animal político) alguém da pólis( sociedade), rsrsr... Até pelo simples fato que " Todo és político, aunque que el político no sea el todo" ( tudo é política, ainda que a política não seja o todo). Tenho consciência dos acertos e erros, no fim de tudo, creio que " combati o bom combate". Mas minha contribuição será maior na educação, no " chão de uma sala de aula", na igreja, na minha comunidade de irmãos! No campo da escola e na escola do Campo! Como sempre fui e pretendo estar sendo. Ai eu me realizo, pois" onde está o seu tesouro, ai está seu coração".
Não pretendo ser mais candidato a mais nenhum cargo eletivo, nada! Apenas quem sabe a um futuro doutorado, rsrsrs... e até isso tenho reavaliado.
Estou feliz, apesar dos apertos, rsrsr...
Ser feliz é um estado contingencial, ninguém o é plenamente, apenas estamos sendo, dia após dia. Caminho devagar pois já tive pressa!
Na paz e no bem,
Hélio Márcio.
Inicio de mais uma caminhada...
Estimad@s !
Fico feliz de poder compartilhar com tod@s vocês e de vz em quando (quando os trabalhos no mestrado deixar, rsrs...) algumas reflexões que faço pelo fato de serem aspirações do que acredito e que as vezes me incomodam muito.
Nem tudo pode servir, pois como acabei de dizer, são as que eu acredito( e quem sou eu?), mas por outro lado podem motivar a reflexão e o surgimento de novas perspectivas.
Sou meio prolixo, as vezes acho que não escrevo bem, agora gosto de falar, isso sim!E a boca fala do que esta cheio o coração!
Um forte abraço a todos...
Paz e Bem!
Hélio Márcio.
Fico feliz de poder compartilhar com tod@s vocês e de vz em quando (quando os trabalhos no mestrado deixar, rsrs...) algumas reflexões que faço pelo fato de serem aspirações do que acredito e que as vezes me incomodam muito.
Nem tudo pode servir, pois como acabei de dizer, são as que eu acredito( e quem sou eu?), mas por outro lado podem motivar a reflexão e o surgimento de novas perspectivas.
Sou meio prolixo, as vezes acho que não escrevo bem, agora gosto de falar, isso sim!E a boca fala do que esta cheio o coração!
Um forte abraço a todos...
Paz e Bem!
Hélio Márcio.
A comunidade-família de Jesus de Názaré...
Como é bom ter uma família.Mesmo que ela não seja assim tão tradicional, o ser humano não nasceu para viver só. Nela a gente encontra apoio, base, alicerce, mas também e porque não um bom espaço para discussão, para exercitarmos a tolerância e reconhecermos o “Outro”, que não é o mesmo, fruto de nosso narcisismo? Neste espaço eminentemente educativo, somos chamados a viver as diferenças com fraternidade e solidariedade. E por falar nessas categorias nada melhor do que, numa sociedade marcada pelas relações de troca financeira “experienciar”a gratuidade nas relações familiares. É uma pena a gente ver irmãos e pais se cobrando desumanamente por qualquer tipo de divida. Sejam elas emocionais, sociais, ou até mesmo pecuniárias.
As religiões em sua grande maioria tem trabalhado bastante esta temática ultimamente. Em seus mais diversos viezes teológicos interpretam o seu “jeito” de ser família. Ora, sendo a religião um fenômeno cultural, suas concepções de família serão decorrentes de suas próprias formas de relacionar-se com suas sociedades culturais. Desta forma, o que pode soar “estranho” como família no ocidente, pode ser perfeitamente normal numa outra sociedade.
Procurei frisar esta relatividade no que diz respeito a família, visto que até mesmo no ocidente, o conceito de família nem sempre foi historicamente igual ao que temos hoje. Nossa família ocidental é oriunda de uma cultura patriarcal greco-romana em que em seus primórdios o chefe de família “despotés” exercia o poder de vida e de morte sobre seus membros. Mulheres, filhos, escravos, agregados, parentes, enfim, todos que mantinham uma relação de dependência e proteção ficavam sobre a tutela do patriarca. O direito romano nos mostra claramente este tipo de relação. Contamos ainda com uma vertente ameríndia onde varias sociedades também vivenciavam esta forma de ser família. A Bíblia nos mostra muitos exemplos desse modo de viver familiar na sociedade hebréia bem como de seus vizinhos.
Com o advento do cristianismo, percebe-se claramente uma nova forma (um pouco tímida ainda, mas estrategicamente segura) de se tratar a família. Paulo, observando o contexto patriarcal da sociedade helênica, não expõe a comunidade cristã (fraca e pequena) ao descrédito da mesma, ele tinha consciência que não adiantava “bater de frente”num momento de crescimento da Igreja num mundo pagão, antes começa a inaugurar com a família cristã uma nova forma, sutil mas profundamente significativa de convívio. Trago aqui uma passagem significativa: “Mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor(...) Maridos amem suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (...) Portanto os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher está amando a si mesmo.( Efésios 5, 22 e ss) E ainda, “Filhos obedeçam a seus pais no Senhor (...) Pais não dêem aos filhos motivos de revoltas contra vocês(...)” ( 6,1 e ss). Também o autor da I Pedro em seu capitulo 3 demonstra esta mudança de comportamento com relação ao tratamento familiar. Mas todas estas manifestações nem sempre foram vivenciadas e/ou assumidas como doutrina social nas culturas em que a fé cristã assegurou sucesso em sua missão.
No decorrer da história, a família se insere em outras etapas da sociedade, e se molda a seus modos de ser e viver. Decorre daí, que a família na Idade Média continuará a ser marcada pelas imposições do senhorio feudal, ao passo que na modernidade, com o surgimento do sujeito e o advento econômico do capitalismo, a guinada na compreensão de família será fundamentalmente significativa.
Percebemos assim, a preocupação das Igrejas com a família, seus valores perenes e suas agitações. A família tem merecido preocupações pastorais e se inserido na agenda de muitas ações de cristãos comprometidos com uma sociedade melhor e mais humanizada. E em assuntos de família cristã, penso responsavelmente que não podem ficar de fora a segurança alimentar, a saúde, o planejamento familiar e a educação. As Igrejas não podem se furtarem de serem mundo familiar, até porque sua teologia se funda numa comunidade familiar, a Trindade Santa. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são solidão! O que acredito ser uma necessidade pastoral e atitude evangélica urgente seria romper com uma concepção burguesa de família centrada nos indivíduos, solidários entre si somente por consangüinidade. Tal concepção de família fechada, nuclear só tenderá ao individualismo. Neste sentido fica fácil amar a “minha” família ou as parecidas com ela. “Se vocês amam somente aqueles que os amam, que gratuidade é essa?” (Lc 6,32). Mas e as outras famílias constituídas de formas diversas, fruto de uma sociedade fragmentária, desigual socialmente e economicamente? São pistas para ao meu ver retomarmos o conceito de família e pastoral familiar. Em vez de centrarmos atenção no aspecto individual da família, abrirmos ela para novas experiências.
As religiões em sua grande maioria tem trabalhado bastante esta temática ultimamente. Em seus mais diversos viezes teológicos interpretam o seu “jeito” de ser família. Ora, sendo a religião um fenômeno cultural, suas concepções de família serão decorrentes de suas próprias formas de relacionar-se com suas sociedades culturais. Desta forma, o que pode soar “estranho” como família no ocidente, pode ser perfeitamente normal numa outra sociedade.
Procurei frisar esta relatividade no que diz respeito a família, visto que até mesmo no ocidente, o conceito de família nem sempre foi historicamente igual ao que temos hoje. Nossa família ocidental é oriunda de uma cultura patriarcal greco-romana em que em seus primórdios o chefe de família “despotés” exercia o poder de vida e de morte sobre seus membros. Mulheres, filhos, escravos, agregados, parentes, enfim, todos que mantinham uma relação de dependência e proteção ficavam sobre a tutela do patriarca. O direito romano nos mostra claramente este tipo de relação. Contamos ainda com uma vertente ameríndia onde varias sociedades também vivenciavam esta forma de ser família. A Bíblia nos mostra muitos exemplos desse modo de viver familiar na sociedade hebréia bem como de seus vizinhos.
Com o advento do cristianismo, percebe-se claramente uma nova forma (um pouco tímida ainda, mas estrategicamente segura) de se tratar a família. Paulo, observando o contexto patriarcal da sociedade helênica, não expõe a comunidade cristã (fraca e pequena) ao descrédito da mesma, ele tinha consciência que não adiantava “bater de frente”num momento de crescimento da Igreja num mundo pagão, antes começa a inaugurar com a família cristã uma nova forma, sutil mas profundamente significativa de convívio. Trago aqui uma passagem significativa: “Mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor(...) Maridos amem suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (...) Portanto os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher está amando a si mesmo.( Efésios 5, 22 e ss) E ainda, “Filhos obedeçam a seus pais no Senhor (...) Pais não dêem aos filhos motivos de revoltas contra vocês(...)” ( 6,1 e ss). Também o autor da I Pedro em seu capitulo 3 demonstra esta mudança de comportamento com relação ao tratamento familiar. Mas todas estas manifestações nem sempre foram vivenciadas e/ou assumidas como doutrina social nas culturas em que a fé cristã assegurou sucesso em sua missão.
No decorrer da história, a família se insere em outras etapas da sociedade, e se molda a seus modos de ser e viver. Decorre daí, que a família na Idade Média continuará a ser marcada pelas imposições do senhorio feudal, ao passo que na modernidade, com o surgimento do sujeito e o advento econômico do capitalismo, a guinada na compreensão de família será fundamentalmente significativa.
Percebemos assim, a preocupação das Igrejas com a família, seus valores perenes e suas agitações. A família tem merecido preocupações pastorais e se inserido na agenda de muitas ações de cristãos comprometidos com uma sociedade melhor e mais humanizada. E em assuntos de família cristã, penso responsavelmente que não podem ficar de fora a segurança alimentar, a saúde, o planejamento familiar e a educação. As Igrejas não podem se furtarem de serem mundo familiar, até porque sua teologia se funda numa comunidade familiar, a Trindade Santa. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são solidão! O que acredito ser uma necessidade pastoral e atitude evangélica urgente seria romper com uma concepção burguesa de família centrada nos indivíduos, solidários entre si somente por consangüinidade. Tal concepção de família fechada, nuclear só tenderá ao individualismo. Neste sentido fica fácil amar a “minha” família ou as parecidas com ela. “Se vocês amam somente aqueles que os amam, que gratuidade é essa?” (Lc 6,32). Mas e as outras famílias constituídas de formas diversas, fruto de uma sociedade fragmentária, desigual socialmente e economicamente? São pistas para ao meu ver retomarmos o conceito de família e pastoral familiar. Em vez de centrarmos atenção no aspecto individual da família, abrirmos ela para novas experiências.
A SEMENTINHA SUBVERSIVA...
Tenho pensado muito ultimamente. As vezes até demais. Pensar muitas vezes incomoda a gente. Somos constantemente bombardeados de informações sobre violência, sobre guerras, crises econômicas, novas tecnologias, enfim, até mesmo escândalos políticos e separações de artistas! Fiz um trato comigo mesmo de tentar não perder a paz por pouca coisa, mas algumas coisas nos perturbam muito pelas suas contradições.Ultimamente uma de minhas preocupações tem sido o crescente distanciamento motivado por interesses econômicos e políticos entre o ocidente ( leia-se EUA) e o oriente ( islã). Retirando as mascaras e os disfarces, sabemos perfeitamente que o debate entre Bush e os paises islâmicos não são motivados pela “missão “de levar a democracia e a liberdade aos cidadãos islâmicos, mas sim a expansão de mercados e exploração de recursos minerais(petróleo) no oriente médio e Ásia central. O islã e a cultura oriental teoricamente inviabilizariam a expansão neoliberal do capitalismo em suas ultimas fronteiras.
É uma pena que a maioria dos meios de comunicação do ocidente comprometidos com o capitalismo não faz a critica necessária e deixa de informar o que está além das aparências. Começo a temer pela eminência de uma nova “guerra santa” convocada por “um neo-cruzado liberal” que evoca o nome de Deus para justificar suas ações de liberdade e democracia. E por falar em democracia, o novo elemento propagandístico do momento é o filme 300, que retrata a defesa da Grécia e o seu modo de vida pelo rei espartano Leônidas contra Xerxes e os persas ( atual Irã). Nada mais sugestivo para lembrar os engodos envolventes do cenário da ofensiva estadunidense no momento. De tudo isso o que mais me intriga é o fato de que pequenos paises islâmicos, pobres, deficientes em tecnologia incomodam tanto o império!
Diante dessa constatação, como cristão, me volto para a Bíblia fazendo a leitura critica do momento, relembrando Frei Carlos Mester em seu método de leitura, no qual dizia que devemos ter a Bíblia numa mão e o jornal em outra para que a leitura da palavra sagrada fosse fecunda e permeasse nossa realidade. Não se trata de reduzir a Palavra como “gancho” de compreensão da realidade, mas fazer a leitura da realidade na perspectiva iluminadora da Palavra de Deus. “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (salmo 119, 105). Fiquei imaginando a cena de Atos dos Apóstolos 17,6 onde Paulo e Silas incomodam bastante e são tratados como os homens que estão “transtornando o mundo inteiro (...) afirmando que existe outro rei chamado Jesus”.
Sabemos que na época de Paulo e sua equipe pastoral, no contexto do império romano, proclamar outra fonte de autoridade fora do imperador era subversão. Daí decorre em parte as grandes perseguições que sofreram os cristãos nos séculos seguintes, antes do casamento da Igreja primitiva com o Estado imperial. Digo que decorre em parte, pelo fato de que o que os cristãos iriam incomodar mais por suas práticas que por suas crenças especificas o poderoso império romano. A superação de uma concepção de trabalho manual como sendo algo exclusivo de escravos, choca-se com os próprios ensinamentos de Paulo, ele não quis ser peso para as Igrejas a quem anunciava a Boa Nova, nisso podemos enxergar o gérmen da abolição da escravidão como prática dos que aceitam a seguir Jesus em seu Caminho (AT 9,2), e conseqüentemente a incompreensão por parte da cultura aristocrática dos greco-romanos. Perseguição a vista! Algo mais, o cristianismo ensinou aos seus o respeito nas relações de gênero num sistema extremamente patriarcal. Mais perseguição e incompreensão! Partilha e comunhão de vida, relações de gratuidade, libertando o pobre de sua miséria e o rico de sua avareza, tudo isso celebrado, com mulheres, escravos e estrangeiros na mesma mesa, todos unidos pela verdade do evangelho (Gal 3,27), mais um motivo para incomodar.Enfim, em quase trezentos anos “ser cristão” representava ser incompreendido e subversivo. Um historiador deixa escapar um comentário sobre a hierarquia da Igreja na época, em que “os bispos eram de ouro e os cálices de madeira”.
Não vou me ater as discussões históricas posteriores, apenas trago esses elementos para uma reflexão sobre a “subversão cristã” necessária nos dias atuais. É no mínimo curioso saber que não somos nós, hoje, os cristãos, ocidentais, bons cidadãos, pais de famílias respeitados, moralmente e politicamente corretos que todos os domingos vamos ao culto ou a missa, que incomodamos o império! Pelo contrário somos elogiados!
“O mundo odiará vocês” (JO 15,19), essas palavras soam desafiadoras e interpelativas hoje. Não se trata de buscar ser masoquista, gostar de sofrer, mas de que em nossa prática profética, ser sinal de esperança, e ser evangelizador é fazer valer nossa dimensão missionária que consiste em materializar a esperança aos desesperados. Infelizmente parece que ser cristão hoje soa mais com o estereótipo do bom comportamento, bem disciplinados (como Foucault descreve), do que no desafio da vivência do evangelho na sociedade e nas suas estruturas.
E por falar em esperança, esta categoria não tem sido muito experimentada em nossa sociedade.Vivemos na sociedade da satisfação imediata advinda do consumo. Nunca se consumiu tanto em nossa sociedade como nesses tempos. Aliás, tempos em que a alta tecnologia se confunde com a pobreza e miséria humana. Falta-se o pão, a educação, a saúde, o essencial para a vida, mas não o celular, e a televisão despertando a confusão entre desejo e esperança. Só podemos ter esperança quando esperamos algo que não temos.
O povo de Israel tinha motivos de esperar, Maria espera ansiosa o cumprimento da promessa de Deus mediante seu sim. Na sociedade do consumo, a espera é substituída pelo desejo de ter.Mediante a esperança criamos condições de ser. Através da Promessa de Deus, o povo se torna seu povo santo, a virgem se torna Mãe pois o Verbo divino se torna humano. Evangelizar se pauta nesta fundamental categoria humana.
Não polemizarei aqui afirmando que os dirigentes islâmicos que tem desafiado o neoliberalismo fundamentam a esperança de alguém, ou incitem o medo. O que quero dizer é que tampouco o modo de vida ocidental, proposto pelo capitalismo neoliberal e triunfalista, e infelizmente vivenciada pela grande massa de “batizados”, tem conseguido sanar os problemas da “banda” empobrecida e “vencida” no mundo.
Neste sentido, nos ensina Pe. Comblin “ ocorre que a mensagem cristã é essencialmente mensagem de esperança, sobretudo para os vencidos. Jesus surge como o próprio sinal de esperança para os camponeses pobres da Galiléia. A sua caminhada pelas aldeias despertou uma fermentação de esperança e entusiasmo. E esse é o núcleo, o ponto de partida de todo projeto cristão, que não pode se afastar das origens sob pena de perder o seu sentido e sua força. Jesus vai para a Galiléia. A opção básica por este lugar já acontecia como Boa-Nova, Evangelho. Jesus nem precisava falar muito. A escolha pelo povo da Galiléia para realizar seus sinais falava por si mesmo. A evangelização não precisa de muitos discursos, a escolha acertada do lugar onde a gente está é essencial para isso. Essa é a referencia absoluta, impostergável e, ao mesmo tempo, um desafio. Os discípulos de Cristo sempre foram para a “Galiléia”? E hoje, estão na “Galiléia”? Quando muitas vezes a relativa esterilidade da evangelização ocorre, não vejo outra explicação. É urgente ir para a “Galiléia”. Quem fizer isso, torna-se sinal de esperança”. E onde ficava a Galiléia? Na periferia da Palestina. É interessante como Jesus insiste em alguns lugares especiais, Galiléia, Betânia, Samaria.Todos lugares periféricos e pobres.
Termino essa pequena reflexão na tentativa de fomentar um pouco mais nossa missão de cristãos: os leigos em seu testemunho constante diante de todas as estruturas da sociedade, mas principalmente os clérigos, lideres eclesiásticos , padres e pastores, como também os educadores . Não está na hora de começarmos a mudar nossa forma de pastoreio e educação e começar a desafiar nossas “ovelhas” gordinhas a serem expertos “cabritos selvagens? Lembro-me de Rubem Alves nesta hora que dizia que nosso grande desafio como pastores e educadores do povo não é formar gente conformada, como “óh velhinhas” que balem “amééémm”quando pregamos ou ensinamos, mas bodes selvagens monteses, aqueles que sobem no alto das montanhas desafiando a lei da gravidade e tem coragem de vivenciar um encontro existencial em suas vidas olhando profundamente nos olhos de Deus.
Ser cristão é correr riscos, somos herdeiros de um “criminoso político” histórico condenado em dois processos. Mas como diz Frei Betto,temos a genética da “sementinha de mostarda”. Se nossa fé for do tamanho dela, ( nem precisa ser maior) removeremos montanhas, cercas que impedem pessoas de viver e amar, fome, preconceitos, tradições sem sentido, violências, etc... Mas se nada sair do lugar, o contrario de nossa fé, não será a incredulidade, mas sim, o medo vencendo a esperança . “Homens da Galiléia, por que vocês estão ai parados olhando para o céu?”(At 1,11).
É uma pena que a maioria dos meios de comunicação do ocidente comprometidos com o capitalismo não faz a critica necessária e deixa de informar o que está além das aparências. Começo a temer pela eminência de uma nova “guerra santa” convocada por “um neo-cruzado liberal” que evoca o nome de Deus para justificar suas ações de liberdade e democracia. E por falar em democracia, o novo elemento propagandístico do momento é o filme 300, que retrata a defesa da Grécia e o seu modo de vida pelo rei espartano Leônidas contra Xerxes e os persas ( atual Irã). Nada mais sugestivo para lembrar os engodos envolventes do cenário da ofensiva estadunidense no momento. De tudo isso o que mais me intriga é o fato de que pequenos paises islâmicos, pobres, deficientes em tecnologia incomodam tanto o império!
Diante dessa constatação, como cristão, me volto para a Bíblia fazendo a leitura critica do momento, relembrando Frei Carlos Mester em seu método de leitura, no qual dizia que devemos ter a Bíblia numa mão e o jornal em outra para que a leitura da palavra sagrada fosse fecunda e permeasse nossa realidade. Não se trata de reduzir a Palavra como “gancho” de compreensão da realidade, mas fazer a leitura da realidade na perspectiva iluminadora da Palavra de Deus. “Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (salmo 119, 105). Fiquei imaginando a cena de Atos dos Apóstolos 17,6 onde Paulo e Silas incomodam bastante e são tratados como os homens que estão “transtornando o mundo inteiro (...) afirmando que existe outro rei chamado Jesus”.
Sabemos que na época de Paulo e sua equipe pastoral, no contexto do império romano, proclamar outra fonte de autoridade fora do imperador era subversão. Daí decorre em parte as grandes perseguições que sofreram os cristãos nos séculos seguintes, antes do casamento da Igreja primitiva com o Estado imperial. Digo que decorre em parte, pelo fato de que o que os cristãos iriam incomodar mais por suas práticas que por suas crenças especificas o poderoso império romano. A superação de uma concepção de trabalho manual como sendo algo exclusivo de escravos, choca-se com os próprios ensinamentos de Paulo, ele não quis ser peso para as Igrejas a quem anunciava a Boa Nova, nisso podemos enxergar o gérmen da abolição da escravidão como prática dos que aceitam a seguir Jesus em seu Caminho (AT 9,2), e conseqüentemente a incompreensão por parte da cultura aristocrática dos greco-romanos. Perseguição a vista! Algo mais, o cristianismo ensinou aos seus o respeito nas relações de gênero num sistema extremamente patriarcal. Mais perseguição e incompreensão! Partilha e comunhão de vida, relações de gratuidade, libertando o pobre de sua miséria e o rico de sua avareza, tudo isso celebrado, com mulheres, escravos e estrangeiros na mesma mesa, todos unidos pela verdade do evangelho (Gal 3,27), mais um motivo para incomodar.Enfim, em quase trezentos anos “ser cristão” representava ser incompreendido e subversivo. Um historiador deixa escapar um comentário sobre a hierarquia da Igreja na época, em que “os bispos eram de ouro e os cálices de madeira”.
Não vou me ater as discussões históricas posteriores, apenas trago esses elementos para uma reflexão sobre a “subversão cristã” necessária nos dias atuais. É no mínimo curioso saber que não somos nós, hoje, os cristãos, ocidentais, bons cidadãos, pais de famílias respeitados, moralmente e politicamente corretos que todos os domingos vamos ao culto ou a missa, que incomodamos o império! Pelo contrário somos elogiados!
“O mundo odiará vocês” (JO 15,19), essas palavras soam desafiadoras e interpelativas hoje. Não se trata de buscar ser masoquista, gostar de sofrer, mas de que em nossa prática profética, ser sinal de esperança, e ser evangelizador é fazer valer nossa dimensão missionária que consiste em materializar a esperança aos desesperados. Infelizmente parece que ser cristão hoje soa mais com o estereótipo do bom comportamento, bem disciplinados (como Foucault descreve), do que no desafio da vivência do evangelho na sociedade e nas suas estruturas.
E por falar em esperança, esta categoria não tem sido muito experimentada em nossa sociedade.Vivemos na sociedade da satisfação imediata advinda do consumo. Nunca se consumiu tanto em nossa sociedade como nesses tempos. Aliás, tempos em que a alta tecnologia se confunde com a pobreza e miséria humana. Falta-se o pão, a educação, a saúde, o essencial para a vida, mas não o celular, e a televisão despertando a confusão entre desejo e esperança. Só podemos ter esperança quando esperamos algo que não temos.
O povo de Israel tinha motivos de esperar, Maria espera ansiosa o cumprimento da promessa de Deus mediante seu sim. Na sociedade do consumo, a espera é substituída pelo desejo de ter.Mediante a esperança criamos condições de ser. Através da Promessa de Deus, o povo se torna seu povo santo, a virgem se torna Mãe pois o Verbo divino se torna humano. Evangelizar se pauta nesta fundamental categoria humana.
Não polemizarei aqui afirmando que os dirigentes islâmicos que tem desafiado o neoliberalismo fundamentam a esperança de alguém, ou incitem o medo. O que quero dizer é que tampouco o modo de vida ocidental, proposto pelo capitalismo neoliberal e triunfalista, e infelizmente vivenciada pela grande massa de “batizados”, tem conseguido sanar os problemas da “banda” empobrecida e “vencida” no mundo.
Neste sentido, nos ensina Pe. Comblin “ ocorre que a mensagem cristã é essencialmente mensagem de esperança, sobretudo para os vencidos. Jesus surge como o próprio sinal de esperança para os camponeses pobres da Galiléia. A sua caminhada pelas aldeias despertou uma fermentação de esperança e entusiasmo. E esse é o núcleo, o ponto de partida de todo projeto cristão, que não pode se afastar das origens sob pena de perder o seu sentido e sua força. Jesus vai para a Galiléia. A opção básica por este lugar já acontecia como Boa-Nova, Evangelho. Jesus nem precisava falar muito. A escolha pelo povo da Galiléia para realizar seus sinais falava por si mesmo. A evangelização não precisa de muitos discursos, a escolha acertada do lugar onde a gente está é essencial para isso. Essa é a referencia absoluta, impostergável e, ao mesmo tempo, um desafio. Os discípulos de Cristo sempre foram para a “Galiléia”? E hoje, estão na “Galiléia”? Quando muitas vezes a relativa esterilidade da evangelização ocorre, não vejo outra explicação. É urgente ir para a “Galiléia”. Quem fizer isso, torna-se sinal de esperança”. E onde ficava a Galiléia? Na periferia da Palestina. É interessante como Jesus insiste em alguns lugares especiais, Galiléia, Betânia, Samaria.Todos lugares periféricos e pobres.
Termino essa pequena reflexão na tentativa de fomentar um pouco mais nossa missão de cristãos: os leigos em seu testemunho constante diante de todas as estruturas da sociedade, mas principalmente os clérigos, lideres eclesiásticos , padres e pastores, como também os educadores . Não está na hora de começarmos a mudar nossa forma de pastoreio e educação e começar a desafiar nossas “ovelhas” gordinhas a serem expertos “cabritos selvagens? Lembro-me de Rubem Alves nesta hora que dizia que nosso grande desafio como pastores e educadores do povo não é formar gente conformada, como “óh velhinhas” que balem “amééémm”quando pregamos ou ensinamos, mas bodes selvagens monteses, aqueles que sobem no alto das montanhas desafiando a lei da gravidade e tem coragem de vivenciar um encontro existencial em suas vidas olhando profundamente nos olhos de Deus.
Ser cristão é correr riscos, somos herdeiros de um “criminoso político” histórico condenado em dois processos. Mas como diz Frei Betto,temos a genética da “sementinha de mostarda”. Se nossa fé for do tamanho dela, ( nem precisa ser maior) removeremos montanhas, cercas que impedem pessoas de viver e amar, fome, preconceitos, tradições sem sentido, violências, etc... Mas se nada sair do lugar, o contrario de nossa fé, não será a incredulidade, mas sim, o medo vencendo a esperança . “Homens da Galiléia, por que vocês estão ai parados olhando para o céu?”(At 1,11).
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