domingo, 9 de dezembro de 2007

" O Espírito do Capitalismo" - Max Weber

Weber inicia este capítulo elegendo como “pretensiosa” a expressão usada por ele para designar o verdadeiro Ethos do Capitalismo, o chamado “Espírito do Capitalismo”, termo este que encontra um forte significado cultural. Discorrer sobre este tema significa desenvolver uma “explanação histórica”, sem se fechar sobre uma formulação conceitual, mas somente iniciar uma descrição provisória sobre seu objeto de estudo neste caso. Adverte ainda que sua intenção inicial é de se manifestar com tranqüilidade a respeito de qualquer idéia religiosa, ficando livre de preconceitos ( p.29).
A partir da citação de sentenças proferidas por B. Franklin apresenta o que seria para ele o núcleo do Ethos do capitalismo, idéia original, que se diferencia como sendo a “qualidade” de interesse de sua obra, diferentemente de um mero “bom senso comercial”. Consegue distinguir este modo de ser e viver, pelo comprometimento na vivência de virtudes que levam ao grau de uma perfeição na honestidade e na prosperidade econômica dos pietistas. “Ganhar dinheiro dentro da ordem econômica moderna é, enquanto for feito legalmente, o resultado e a expressão de virtude e de eficiência em uma vocação: e estas virtude e eficiência são, como não é difícil de ver agora, os verdadeiros Alfa e Ômega da ética de Franklin(...)”(p.33). Discorrendo historicamente sobre o assunto Weber demonstra que a “avidez pelo ouro” sempre existiu no contexto das nações e épocas, sendo para ele, “tão velha quanto o homem” porém, esta mesma situação apresenta-se ultimamente de forma original, revestida de um novo caráter, o caráter racional que envolve a modernidade. Neste sentido, o oponente mais importante que o “Espírito do Capitalismo” como estilo normativo de vida tem que reagir, seria justamente o tradicionalismo econômico ligado a idéia da “necessidade de sobrevivência”e “aquisição( p.37 e 41). Para ilustrar esta situação, traz os exemplos de trabalhadores e trabalhadoras em diversos níveis e categorias e seus respectivos comportamentos em relação a salários e modos de trabalho. Um aspecto interessante a ser abordado, é a afirmação de que com as trabalhadoras metodistas “as oportunidades de superar o tradicionalismo aqui são muito grandes devido a educação religiosa. Esta observação do capitalismo contemporâneo sugere por si mesmo a validade da interrogação de como esta conexão de adaptabilidade do capitalismo a fatores religiosos pode ter surgido na época do seu desenvolvimento inicial”( p.40). Todas estas afirmações remetem a idéia de superação de um modelo aventureiro e sem base racional para uma concepção firme, sóbria, e ascética de um novo jeito de ser e experienciar a prosperidade econômica decorrentes da acumulação do capital. O tipo ideal não apresentará ostentação, evita as despesas desnecessárias e o gozo de uma vida de delicias. Ele encontra na “vocação” (trabalho) a forma de louvar e adorar a Deus sem perda de tempo. Mas o que teria feito germinar a noção de “vocação”como sentido para o trabalho ascético secular? Esta prefigura como uma das grandes perguntas de Weber neste capítulo. Diante da qual sugere e investiga inicialmente o caráter do racionalismo ofertado pelo desenvolvimento histórico, ao qual rejeita pelo fato da “história do racionalismo apresentar um desenvolvimento que absolutamente não segue linhas paralelas nos vários setores da vida”.(p.51) Desta forma finaliza o capitulo, afirmando que: “estamos aqui particularmente interessados na origem do elemento irracional que precisamente se apresenta nesta, como em toda concepção de Vocação”( p.51) o que de certa forma justifica sua investigação no capitulo V identificando a “ascese “ religiosa como elemento basilar desta nova forma normativa de vida.

Hélio Márcio Gonçalves da Silva

Os caminhos e descaminhos da “acumulação racializada de oportunidades atribuídas ao mérito”. [1]

Deixar de debater um problema, ou ignorá-lo, jamais fará com que o mesmo possa ser sanado ou pelo menos combatido. Enfrentamos no Brasil, alguns problemas que ainda carecem de debates sérios e pontuais, que inobstantes estarem sendo feitos na Academia, precisam ser inseridos nas realidades diárias de todos nós. Falo aqui do debate sobre o racismo, o preconceito e a discriminação racial fortemente enraizados na sociedade brasileira e na maioria das vezes negado ou dissimulado. Daí surge à pergunta, onde as categorias acima descritas estão mais presentes? Lembro-me do slogan de uma campanha anti-racismo veiculada na televisão que perguntava: “Onde você guarda seu racismo?” A leitura e o conhecimento da pesquisa intitulada “Desigualdades Raciais no Brasil : um balanço da intervenção governamental” do IPEA [2] , sob a coordenação de Luciana Jaccoud e Nathalie Beghin nos mostra claramente onde estão os espaços de discriminação racial e nos coloca em sintonia com o debate sobre as políticas afirmativas no Brasil.
Admitir as discriminações e os preconceitos com relação ao elemento racial no Brasil nos remete a discussão primeiramente ao confronto com o “mito da democracia racial” . A idéia das “três raças” fundadoras da nação e do povo, que aprenderam a conviver harmoniosamente e em condições de igualdade. O texto, altamente elucidativo expõe os números da desigualdade, quais sejam: desigualdade de renda e pobreza, desigualdades e discriminação no mercado de trabalho, desigualdades e discriminação na educação, de onde “depreende-se, com clareza que parte significativa das desigualdades raciais entre brancos e negros no país está diretamente vinculada à discriminação racial vigente tanto na escola como no mercado de trabalho” (Jaccoud e Beghin, 2002).
Dos elementos e categorias expostos, penso que o Estado Brasileiro deve ser o propulsor de Políticas Públicas que venham de encontro a esta realidade gritante, tendo como fundamento basilar, a tão propalada noção de cidadania:
“A cidadania se constitui pela e na criação de espaço sociais de lutas ( movimentos sociais, movimentos populares e movimentos sindicais) e pela instituição de formas políticas de expressão permanentes ( partidos políticos, Estado de Direito, políticas econômicas e sociais) que criem, reconheçam e garantam a igualdade e liberdade dos cidadãos, declaradas sob a forma dos direitos. Em outras palavras, desde sua fundação, a democracia é inseparável da idéia de espaço público.” ( Chauí, 2001, p.12)

Num contexto social, cultural e econômico, onde a legislação coativa contra discriminação se mostra ineficiente no que diz respeito à inserção do negro no mundo do trabalho, relegando a essa população os “postos menos atraentes, mais servis do mercado de trabalho como um todo ou de um determinado ramo de atividade” (Gomes, 2001 apud Jaccoud e Beghin, 2002, p.41), quais seriam as saídas para essa deficiência? Como vislumbrar outros horizontes que não o da desigualdade?
E é neste espaço público que devemos trazer presente a realidade das Políticas Afirmativas e a suas contribuições na superação e combate das desigualdades raciais. Na medida em que a questão racial se impõe à agenda nacional, torna-se fundamental reconhecer que só se combate à desigualdade por diferentes frentes ( Jaccoud e Beghim, 2002, p.41), reativamente e pró – ativamente, ou seja, enfrentando diretamente e indiretamente a discriminação e o racismo na sociedade brasileira.
Outro fator que contribui para o debate em questão é a discordância e a contrariedade existente em alguns setores da sociedade brasileira, bem como na opinião de alguns intelectuais. Segundo Santos (1997) apud Jaccoud e Beghin (2002) é possível identificar alguns argumentos neste debate: a questão da isonomia, a idéia do mérito, o fator da pobreza e o elemento da miscigenação. Além do que é muito comum ainda ouvir vozes discordantes, argumentando que tais políticas aguçariam o conflito racial brasileiro. Enfim, os argumentos contrários devem e vem sendo rebatidos vigorosamente, demonstrando que somente tratando diferentemente os desiguais, é que se pode alcançar uma igualdade distributiva entre os grupos, rebatendo a idéia reducionista do mérito, que não reconhece a excelência que o país pode ganhar incluindo pessoas capazes( pretos e pardos) de desenvolver suas potencialidades, reconhecendo que independente da pobreza real que assola boa parte da população, os negros em razão de sua marginalização histórica e muitas vezes a baixa auto-estima não conseguirão avançar sem uma política especifica de inclusão racial, e por fim as Políticas Afirmativas ligadas a raça devem atingir tanto pretos como pardos pois os dados pesquisados revelam que os dois grupos sofrem dificuldades parecidas.
O debate sobre as Políticas Afirmativas e sua confirmação temporal se torna necessário até porque numa sociedade democrática, uma de suas características fundamentais, seria a compreensão de que “a criação dos direitos” só pode realmente existir na democracia, regime político aberto às mudanças temporais, que faz surgir o novo como parte de sua existência e consequentemente a temporalidade como seu modo de ser (Chauí, 2001, p.11).
Não podemos mais nos esquivar desse precioso e elucidativo debate nacional. Algumas situações, bem como algumas ações têm sido feitas e devem ser apoiadas pela sociedade (o caso das cotas universitárias, por exemplo) se queremos de fato estender a cidadania concreta (e não só de fábula) a nossa população negra, historicamente marginalizada.
O que nas palavras de Roberto DaMata (2001, p.47) se confirmam :

“Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplas possibilidades de classificação. Assim, o “racismo à brasileira”, paradoxalmente, torna a injustiça algo tolerável, e a diferença, uma questão de tempo e amor. Eis, numa cápsula, o segredo da fábula das três raças...”

Viver a ingenuidade, crer exclusivamente na eficiência de medidas coativas para superar a discriminação e a desigualdade racial no Brasil, “absolutizar” o mérito como única forma de acesso a bens e serviços públicos, é continuar a acreditar no famoso “Mito da Democracia Racial Brasileira” e no mínimo perpetuar a marginalização.
[1] Termo utilizado por Guimarães (1996) apud Jaccoud e Beghin (2002), p.53.
[2] Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Nestes dias tristes...

A vida é limitada. Está certeza muitas vezes nos constrange naturalmente, mas muito mais quando ela (vida) se torna limitada por um acidente, por uma violência, enfim por uma ação não natural.

Perder um ente querido se configura uma experiência das mais dolorosas. Somente quem viveu esta situação sabe a dor, a tristeza, o sofrimento na alma. Eu, na noite passada quase não dormi, pensando na angustia das famílias do acidente aéreo da TAM em Congonhas. Oro por eles, só posso ser solidário neste momento assim... Mas não deixo de ficar muito incomodado com a “morte nossa de cada dia” fruto da violência humana estrutural que ocorre nas favelas, nas ruas, nas periferias e por vezes fica tão banalizada que passa a ser pouco comentada.

Entretanto, como toda experiência existencial humana, a morte também merece ser refletida. Recordo-me de uma aula de filosofia na Universidade, primeiro semestre de Agronomia, na ocasião meus alunos (creio que a maioria) esperavam um discurso pronto sobre os “fundamentos epistemológicos da ciência moderna no ocidente” e resolvi lhes perguntar se “estavam preparados” para o momento de sua morte! Nem lhes conto, aquilo foi chocante, repudiaram dramaticamente o questionamento, perguntando-me se eu estava louco, rsrsr...
Ficou-me como certa a impressão de que a grande maioria das pessoas, jovens principalmente não sabe lidar com este assunto.Mas por quais motivos?

Lendo um texto de filosofia estes dias, as autoras faziam uma menção curiosa. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins sugerem que nossa sociedade substitui os momentos de discutir alguns “tabus”, dentre eles a morte e o sexo. Deixe-me explicar melhor. Antigamente, se falava pouco sobre sexo, a educação sexual era “experimentada” às “escondidas”. As mães por vezes só contavam para as filhas o que viria acontecer na noite de núpcias, poucos momentos antes do casamento. Era um “tabu”. Por outro lado, a morte era experienciada, vivida no seio da família. Um idoso morria cercado pelos filhos, abençoando seus netos, quase que num ritual de despedidas finais. Hoje, ao contrário, aprende-se cedo sobre sexo, as escolas, os pais, a televisão, a Internet, todos comentam abertamente sobre o assunto, mas sobre a morte, seus rituais, sobre os limites da vida, quase ninguém se atreve a falar. Ficam relegados as “mãos”e cuidados de profissionais, muitas vezes longe da casa familiar, na frieza muitas vezes de um hospital ou asilo. Percebe-se ai um distanciamento (ou medo?) da dor, do sofrimento, do limite final. Uma tentativa de poupar os pequenos.

Recordar que a vida tem limite, que nosso tempo histórico é finito, creio eu que seja uma necessidade nos dias atuais se considerarmos o quanto podemos poupar de sofrimentos a própria vida. O homem hodierno anula as coisas mais prazerosas e significativas da vida em nome de um suposto prolongamento da mesma. Dá para perceber isso quando vemos uma verdadeira dependência da chamada “produtividade” no trabalho, do relógio, das convenções sociais, tudo isso em detrimento do tempo com a família, com os amigos, até consigo mesmo. Como é motivador, espiritualmente falando contemplar um pôr-do-sol.

Fico imaginando então, quem pensa que pode “acrescentar” um dia a mais na sua vida, e a pior, pensa que nunca a morte chegará a ele, no máximo ela chega no “vizinho”. Não me considerem um fatalista, ou mesmo determinista com relação a este assunto, mas penso que temos que considerar sempre, e com certeza a finitude de nossa vida. É muito significativo o conselho evangélico de que a vida é dom de Deus (Lc 12, 16-21), e que não podemos nos iludir com os projetos puramente materiais. Um grande pregador, o saudoso Pe. Léo, dizia que “só vale a pena lutar por aquilo que tem a marca do eterno”.

Bem, daria para ficar escrevendo, escrevendo e sendo chato sobre isso. Finalizo afirmando que a morte é conseqüência de nossa condição humana, e por mais que tentemos adiá-la, ela chega e nos colhe.

Por ser triste, deixar vazio, dor e sofrimento ela jamais conseguirá ser “explicada”. Só podemos “chorar com os que choram”, ou seja, experiência-la, vivê-la literalmente falando. Viver a morte com a certeza da vida! E como cristão, eu creio que ela não pode ser o veredicto final. Ora, se a semente não morre, nunca vira árvore! Somente “quem não ama permanece na morte” e “nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (I Jo 3,14). Eis o caminho seguro para a superação da morte e seu medo. Ser semente! Disso decorre que só se tem medo da morte quando a semente é estéril, ou quando a vida é pequena ou muito medíocre. Amar faz a vida ser plena, grande e eterna. Nos da a certeza de germinar e ser árvore. Isso vale para todos, independente da crença ou não-crença.

Pensemos nisso e nos convertamo-nos para o amor.

Paz, bem e bom dia a tod@s!

Hélio Márcio

quarta-feira, 18 de julho de 2007

VALE A PENA REFLETIR SOBRE O QUE DO FUNDO DA ALMA CREMOS E AMAMOS...

Frei Betto nos brinda com esta poesia linda e constrangedora...

Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir. Deus que precede todos os batismos, pré-existe aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas. Livre dos teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.

Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos. Deus ourives em cada ínfimo elo das partículas elementares, da requintada arquitetura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.

Creio no Deus que se faz sacramento em tudo que aproxima, atrai, enlaça, abraça e une - o amor. Todo amor é Deus e Deus é o real. Em se tratando de Deus, bem diz Rumî, não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.

Creio no Deus que se faz refração na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer. Creio em teofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro que não sou eu. Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto conseguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.

Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere blasfêmias.

Creio no Deus que, na minha infância, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namorada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanheceres.

Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do coração e, soada a música, arrebata-nos à saciedade.

Creio no Deus do estupor de Maria, da trilha laboral das formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.

Creio no Deus que se esconde no avesso da razão atéia, observa o empenho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.

Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao hediondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha à nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de estultices humanas.
Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nessa Criação sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso ato de fé.


Frei Betto é escritor, autor de "A Obra do Artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Por onde andas...o que tens feito...o que pretendes fazer ?

Muitas pessoas e inclusive amig@s que tenho reencontrado tem me enchido de perguntas ultimamente. Perguntas que chegam as raias da pura "especulação" ( me perdoem se fui duro).
Por onde andas? O que você tem feito? O que pretende fazer e ser?
Bem se vier de amigos próximos, a maioria ja sabe todas elas, pois os amigos sempre nos acompanharam. Mas se "alguém " ainda não sabe eu respondo: fico em Cuiabá fazendo o Mestrado em Educação ( meu grande sonho se concretiza), e simplesmente pretendo ser um bom educador em minha cidade.
Só isso, simples como o Evangelho. Nada mais de " luzes, câmera, ação!". Sinceramente, não tenho vocação para isso. Passei no concurso da SEDUC e não quero perder esta chance.
Político serei sempre, no sentido mais radical da palavra, como diz Aristóteles um verdadeiro " zoom politikon"( animal político) alguém da pólis( sociedade), rsrsr... Até pelo simples fato que " Todo és político, aunque que el político no sea el todo" ( tudo é política, ainda que a política não seja o todo). Tenho consciência dos acertos e erros, no fim de tudo, creio que " combati o bom combate". Mas minha contribuição será maior na educação, no " chão de uma sala de aula", na igreja, na minha comunidade de irmãos! No campo da escola e na escola do Campo! Como sempre fui e pretendo estar sendo. Ai eu me realizo, pois" onde está o seu tesouro, ai está seu coração".
Não pretendo ser mais candidato a mais nenhum cargo eletivo, nada! Apenas quem sabe a um futuro doutorado, rsrsrs... e até isso tenho reavaliado.
Estou feliz, apesar dos apertos, rsrsr...
Ser feliz é um estado contingencial, ninguém o é plenamente, apenas estamos sendo, dia após dia. Caminho devagar pois já tive pressa!
Na paz e no bem,
Hélio Márcio.

Inicio de mais uma caminhada...

Estimad@s !

Fico feliz de poder compartilhar com tod@s vocês e de vz em quando (quando os trabalhos no mestrado deixar, rsrs...) algumas reflexões que faço pelo fato de serem aspirações do que acredito e que as vezes me incomodam muito.

Nem tudo pode servir, pois como acabei de dizer, são as que eu acredito( e quem sou eu?), mas por outro lado podem motivar a reflexão e o surgimento de novas perspectivas.

Sou meio prolixo, as vezes acho que não escrevo bem, agora gosto de falar, isso sim!E a boca fala do que esta cheio o coração!

Um forte abraço a todos...

Paz e Bem!

Hélio Márcio.

A comunidade-família de Jesus de Názaré...

Como é bom ter uma família.Mesmo que ela não seja assim tão tradicional, o ser humano não nasceu para viver só. Nela a gente encontra apoio, base, alicerce, mas também e porque não um bom espaço para discussão, para exercitarmos a tolerância e reconhecermos o “Outro”, que não é o mesmo, fruto de nosso narcisismo? Neste espaço eminentemente educativo, somos chamados a viver as diferenças com fraternidade e solidariedade. E por falar nessas categorias nada melhor do que, numa sociedade marcada pelas relações de troca financeira “experienciar”a gratuidade nas relações familiares. É uma pena a gente ver irmãos e pais se cobrando desumanamente por qualquer tipo de divida. Sejam elas emocionais, sociais, ou até mesmo pecuniárias.
As religiões em sua grande maioria tem trabalhado bastante esta temática ultimamente. Em seus mais diversos viezes teológicos interpretam o seu “jeito” de ser família. Ora, sendo a religião um fenômeno cultural, suas concepções de família serão decorrentes de suas próprias formas de relacionar-se com suas sociedades culturais. Desta forma, o que pode soar “estranho” como família no ocidente, pode ser perfeitamente normal numa outra sociedade.
Procurei frisar esta relatividade no que diz respeito a família, visto que até mesmo no ocidente, o conceito de família nem sempre foi historicamente igual ao que temos hoje. Nossa família ocidental é oriunda de uma cultura patriarcal greco-romana em que em seus primórdios o chefe de família “despotés” exercia o poder de vida e de morte sobre seus membros. Mulheres, filhos, escravos, agregados, parentes, enfim, todos que mantinham uma relação de dependência e proteção ficavam sobre a tutela do patriarca. O direito romano nos mostra claramente este tipo de relação. Contamos ainda com uma vertente ameríndia onde varias sociedades também vivenciavam esta forma de ser família. A Bíblia nos mostra muitos exemplos desse modo de viver familiar na sociedade hebréia bem como de seus vizinhos.
Com o advento do cristianismo, percebe-se claramente uma nova forma (um pouco tímida ainda, mas estrategicamente segura) de se tratar a família. Paulo, observando o contexto patriarcal da sociedade helênica, não expõe a comunidade cristã (fraca e pequena) ao descrédito da mesma, ele tinha consciência que não adiantava “bater de frente”num momento de crescimento da Igreja num mundo pagão, antes começa a inaugurar com a família cristã uma nova forma, sutil mas profundamente significativa de convívio. Trago aqui uma passagem significativa: “Mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor(...) Maridos amem suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (...) Portanto os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher está amando a si mesmo.( Efésios 5, 22 e ss) E ainda, “Filhos obedeçam a seus pais no Senhor (...) Pais não dêem aos filhos motivos de revoltas contra vocês(...)” ( 6,1 e ss). Também o autor da I Pedro em seu capitulo 3 demonstra esta mudança de comportamento com relação ao tratamento familiar. Mas todas estas manifestações nem sempre foram vivenciadas e/ou assumidas como doutrina social nas culturas em que a fé cristã assegurou sucesso em sua missão.
No decorrer da história, a família se insere em outras etapas da sociedade, e se molda a seus modos de ser e viver. Decorre daí, que a família na Idade Média continuará a ser marcada pelas imposições do senhorio feudal, ao passo que na modernidade, com o surgimento do sujeito e o advento econômico do capitalismo, a guinada na compreensão de família será fundamentalmente significativa.
Percebemos assim, a preocupação das Igrejas com a família, seus valores perenes e suas agitações. A família tem merecido preocupações pastorais e se inserido na agenda de muitas ações de cristãos comprometidos com uma sociedade melhor e mais humanizada. E em assuntos de família cristã, penso responsavelmente que não podem ficar de fora a segurança alimentar, a saúde, o planejamento familiar e a educação. As Igrejas não podem se furtarem de serem mundo familiar, até porque sua teologia se funda numa comunidade familiar, a Trindade Santa. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são solidão! O que acredito ser uma necessidade pastoral e atitude evangélica urgente seria romper com uma concepção burguesa de família centrada nos indivíduos, solidários entre si somente por consangüinidade. Tal concepção de família fechada, nuclear só tenderá ao individualismo. Neste sentido fica fácil amar a “minha” família ou as parecidas com ela. “Se vocês amam somente aqueles que os amam, que gratuidade é essa?” (Lc 6,32). Mas e as outras famílias constituídas de formas diversas, fruto de uma sociedade fragmentária, desigual socialmente e economicamente? São pistas para ao meu ver retomarmos o conceito de família e pastoral familiar. Em vez de centrarmos atenção no aspecto individual da família, abrirmos ela para novas experiências.