quinta-feira, 19 de julho de 2007

Nestes dias tristes...

A vida é limitada. Está certeza muitas vezes nos constrange naturalmente, mas muito mais quando ela (vida) se torna limitada por um acidente, por uma violência, enfim por uma ação não natural.

Perder um ente querido se configura uma experiência das mais dolorosas. Somente quem viveu esta situação sabe a dor, a tristeza, o sofrimento na alma. Eu, na noite passada quase não dormi, pensando na angustia das famílias do acidente aéreo da TAM em Congonhas. Oro por eles, só posso ser solidário neste momento assim... Mas não deixo de ficar muito incomodado com a “morte nossa de cada dia” fruto da violência humana estrutural que ocorre nas favelas, nas ruas, nas periferias e por vezes fica tão banalizada que passa a ser pouco comentada.

Entretanto, como toda experiência existencial humana, a morte também merece ser refletida. Recordo-me de uma aula de filosofia na Universidade, primeiro semestre de Agronomia, na ocasião meus alunos (creio que a maioria) esperavam um discurso pronto sobre os “fundamentos epistemológicos da ciência moderna no ocidente” e resolvi lhes perguntar se “estavam preparados” para o momento de sua morte! Nem lhes conto, aquilo foi chocante, repudiaram dramaticamente o questionamento, perguntando-me se eu estava louco, rsrsr...
Ficou-me como certa a impressão de que a grande maioria das pessoas, jovens principalmente não sabe lidar com este assunto.Mas por quais motivos?

Lendo um texto de filosofia estes dias, as autoras faziam uma menção curiosa. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins sugerem que nossa sociedade substitui os momentos de discutir alguns “tabus”, dentre eles a morte e o sexo. Deixe-me explicar melhor. Antigamente, se falava pouco sobre sexo, a educação sexual era “experimentada” às “escondidas”. As mães por vezes só contavam para as filhas o que viria acontecer na noite de núpcias, poucos momentos antes do casamento. Era um “tabu”. Por outro lado, a morte era experienciada, vivida no seio da família. Um idoso morria cercado pelos filhos, abençoando seus netos, quase que num ritual de despedidas finais. Hoje, ao contrário, aprende-se cedo sobre sexo, as escolas, os pais, a televisão, a Internet, todos comentam abertamente sobre o assunto, mas sobre a morte, seus rituais, sobre os limites da vida, quase ninguém se atreve a falar. Ficam relegados as “mãos”e cuidados de profissionais, muitas vezes longe da casa familiar, na frieza muitas vezes de um hospital ou asilo. Percebe-se ai um distanciamento (ou medo?) da dor, do sofrimento, do limite final. Uma tentativa de poupar os pequenos.

Recordar que a vida tem limite, que nosso tempo histórico é finito, creio eu que seja uma necessidade nos dias atuais se considerarmos o quanto podemos poupar de sofrimentos a própria vida. O homem hodierno anula as coisas mais prazerosas e significativas da vida em nome de um suposto prolongamento da mesma. Dá para perceber isso quando vemos uma verdadeira dependência da chamada “produtividade” no trabalho, do relógio, das convenções sociais, tudo isso em detrimento do tempo com a família, com os amigos, até consigo mesmo. Como é motivador, espiritualmente falando contemplar um pôr-do-sol.

Fico imaginando então, quem pensa que pode “acrescentar” um dia a mais na sua vida, e a pior, pensa que nunca a morte chegará a ele, no máximo ela chega no “vizinho”. Não me considerem um fatalista, ou mesmo determinista com relação a este assunto, mas penso que temos que considerar sempre, e com certeza a finitude de nossa vida. É muito significativo o conselho evangélico de que a vida é dom de Deus (Lc 12, 16-21), e que não podemos nos iludir com os projetos puramente materiais. Um grande pregador, o saudoso Pe. Léo, dizia que “só vale a pena lutar por aquilo que tem a marca do eterno”.

Bem, daria para ficar escrevendo, escrevendo e sendo chato sobre isso. Finalizo afirmando que a morte é conseqüência de nossa condição humana, e por mais que tentemos adiá-la, ela chega e nos colhe.

Por ser triste, deixar vazio, dor e sofrimento ela jamais conseguirá ser “explicada”. Só podemos “chorar com os que choram”, ou seja, experiência-la, vivê-la literalmente falando. Viver a morte com a certeza da vida! E como cristão, eu creio que ela não pode ser o veredicto final. Ora, se a semente não morre, nunca vira árvore! Somente “quem não ama permanece na morte” e “nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (I Jo 3,14). Eis o caminho seguro para a superação da morte e seu medo. Ser semente! Disso decorre que só se tem medo da morte quando a semente é estéril, ou quando a vida é pequena ou muito medíocre. Amar faz a vida ser plena, grande e eterna. Nos da a certeza de germinar e ser árvore. Isso vale para todos, independente da crença ou não-crença.

Pensemos nisso e nos convertamo-nos para o amor.

Paz, bem e bom dia a tod@s!

Hélio Márcio

Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns meu irmão pelos textos. Aliás todos bem elaborados, realmente nos faz refletir. Continue firme em sua caminhada. Sucesso. Um grande abraço. Juliano